Os modos gregos no estudo de improvisação com guitarra

Eu ainda não havia abordado este tema diretamente nas aulas que publico aqui porque não considero relevante para quem quer tocar um instrumento, desde o iniciante até o mais técnico e experiente. Todavia, são constantes as perguntas sobre o assunto, talvez por ser uma linguagem muito admirada pelos guitarristas atuais e pelos amantes da linguagem musical americana. Em cursos de música de nível acadêmico, aparece o assunto, talvez de forma mais teórica e histórica, porém, nos cursos livres voltados para a improvisação, passam-se a ideia de que entender os modos gregos é fundamental para solar e improvisar, e ainda mais, que é muito importante alterar ou adaptar os diagramas convencionais utilizados nas guitarras para fazer surtir os efeitos dos ditos modos gregos da teoria da improvisação. Alguns professores, principalmente de guitarra, costumam apresentar esse tópico como um estudo de nível avançado e complexo, causando no aluno uma ansiedade pela compreensão do assunto que o leva a gastar um precioso tempo numa busca frustrante que acaba causando ainda mais dúvidas. 

A mística dos modos gregos na improvisação

Os nomes são sete: Jônico, Dórico, Frígio, Lídio, Mixolídio, Eólico e Lócrio.

  • Nessa ordem eles estão diretamente ligados às escalas diatônicas maiores, ou seja: 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª e 7ª notas de quaisquer escalas maiores (lembrando que a 1ª nota é igual à 8ª, completando a escala). Então, em escala, temos:

Jônico = 1ª nota, Dórico = 2ª nota, Frígio = 3ª nota, Lídio = 4ª nota, Mixolídio = 5ª nota, Eólico = 6ª nota e Lócrio = 7ª nota.

  • Nessa ordem eles estão também diretamente relacionados com as escalas maiores harmonizadas, na seguinte progressão: I, IIm, IIIm, IV, V, VIm e VIIm(b5). Então, em escala harmonizada, temos: 

Jônico = I, Dórico = IIm, Frígio = IIIm, Lídio = IV, Mixolídio = V, Eólico = VIm e Lócrio = VIIm(b5)

Resumidamente, o que temos acima é a associação dos nomes gregos com as escalas em progressão melódica e harmônica. Ao meu ver, sem nenhuma utilidade do ponto de vista da improvisação. 

Vamos tomar como exemplo a escala de Dó maior para ilustrar com mais clareza:

Jônico = I = C , Dórico = IIm = Dm, Frígio = IIIm = Em, Lídio = IV = F, Mixolídio = V = G, Eólico = VIm = Am e Lócrio = VIIm(b5) = Bm(b5)

Análise dos modos no contexto da escala diatônica

Tomemos como exemplo a canção Espanhola do compositor Flávio Venturine tocada no tom Dó maior (escala). Ela começa com o acorde Fá maior (IV), então diz-se que ela começa ou está no modo Lídio, ou seja, o primeiro acorde a ser executado é o quarto do tom e não o primeiro. Em termos práticos isso significa que a escala principal a ser usada para criar frases improvisadas nesta canção continuará sendo a escala de Dó maior. Neste ponto pode-se criar uma complexa teoria ao afirmar que se deve utilizar a escala no modo Lídio ou Escala Lídia. Porém, pode-se também seguir uma regra básica e lógica que considera a melodia uma parceira da harmonia, em composição e improvisação. Alguns professores afirmam que é preciso tocar os diagramas começando pela nota correspondente ao modo. Por que eles ensinam assim: porque a nota melódica correspondente ao modo é também a primeira nota do acorde correspondente ao modo, ou seja, a escala a ser usada continua sendo a mesma, porém muda-se a nota inicial, obviamente seguindo o acorde. 

Análise da relação entre melodia e harmonia

Ao observar a melodia como parceira da harmonia, conclui-se que todas as notas da melodia estão ligadas diretamente aos acordes da harmonia. As frases da melodia destacam algumas notas basicamente de duas maneiras: pela iniciação ou pela duração. Essas notas destacadas estão sempre em sintonia com o acorde que as acompanham, e a forma mais clara de se fazer essa sintonia é dando destaque à nota fundamental do acorde que é a primeira nota dele, é aquela que o nomeia. Secundariamente, pode-se destacar outras notas do acorde como terça, quinta, sétima, etc, porém, quanto mais distante da primeira (fundamental) menor a percepção de elo entre melodia e harmonia. Assim sendo, para o acorde fá (F) a nota mais provável para se destacar é a própria nota fá em qualquer tom (escala). 

Análise dos modos no contexto das seções tonais

A seções tonais são formas de se analisar acordes secundariamente ao tom real, isso quer dizer que os acordes podem ser interpretados como se pertencessem a outro tom e não ao que a música foi composta. Por exemplo, em um compasso de uma música composta em Dó maior temos o acorde ré menor (Dm), obviamente a principal escala a ser usada na improvisação é a diatônica de Dó maior, porém, esse mesmo acorde pertence também aos tons de Si bemol maior (Bb) e Fá maior abrindo margem para que as escalas respectivas sejam usadas também como alternativa para improvisação sobre o acorde Ré menor. Assim sendo diríamos que podemos analisar esse Ré menor como Dórico (IIm em dó maior), Frígio (IIIm em Si bemol maior) e Eólico (VIm em Fá maior). Essas possibilidades utilizam notas atonais que podem gerar percepções desagradáveis causadas pela própria dissonância. Essas dissonâncias serão menos perceptíveis quando as frases forem de notas curtas ou quando a nota atonal for usada de passagem.

Análise de improvisação sobre acordes atonais

A análise seccional relacionada à escala a ser usada na improvisação quando o acorde ou um conjunto de acordes não pertencem ao tom da música proporciona melhor escolha da escala a ser empregada, uma vez que as notas da escala do tom real da composição não atendem às necessidades de relação sonora imprimida por esses acordes atonais.

As harmonias modais dos gregos

Os filósofos gregos procuravam encontrar nos modos das escalas uma associação com a moral e a ética. O trecho abaixo é um diálogo entre Sócrates e seu amigo Glauco em busca do melhor caráter expressado no canto e na melodia para aplicação na cidade imaginária que estavam construindo na obra A República (380 a.C.) de Platão.

Sócrates — Quais são as harmonias plangentes? Diz-nos, visto que és músico.
Glauco — São a lídia mista, a aguda e outras semelhantes.
Sócrates — Convém, pois, suprimi-las, não é verdade? Porque são inúteis para as mulheres honradas e, com maior razão, para os homens.
Glauco — Certamente.
Sócrates — Nada há mais inconveniente para os guardiães do que a embriaguez, a moleza e a indolência.
Glauco — Sem dúvida.
Sócrates — Quais são harmonias efeminadas usadas nos banquetes?
Glauco — A jânica e a lídia que se denominam harmonias lassas.
Sócrates — De tais harmonias, meu amigo, tu te servirás para formar guerreiros?
Glauco — De maneira nenhuma. Receio que não te restem senão a dórica e a frígia.
Sócrates — Não conheço todas as harmonias, mas deixa-nos aquela que imita os tons e as entonações de um valente empenhado em batalha ou em qualquer outra ação violenta, quando, por infortúnio, corre ao encontro dos ferimentos, da morte ou é atingido por outra infelicidade, e, em todas essas circunstâncias, firme no seu posto e resoluto, repele os ataques do destino. Deixa-nos outra harmonia para imitar o homem empenhado numa ação pacífica, não violenta mas voluntária, que procura persuadir, para obter o que pede, quer um deus por intermédio de suas preces, quer um homem por intermédio das suas lições e conselhos, ou, ao contrário, solicitado, ensinado, convencido, se submete a outro e, tendo por estes meios sido bem-sucedido, não se enche de orgulho, mas se comporta em todas as circunstâncias com sabedoria e moderação, feliz com o que lhe acontece. Estas duas harmonias, a violenta e a voluntária, que imitarão com mais beleza as entonações dos infelizes, dos felizes, dos sábios e dos valentes, estas deixa-as ficar.
Glauco — As harmonias que me pedes para deixar não são senão aquelas que mencionei há pouco.
Sócrates — Não precisaremos pois, para os nossos cantos e as nossas melodias, de instrumentos com muitas cordas, que reproduzem todas as harmonias.
Glauco — Não, por certo.
Sócrates — Nem tampouco precisaremos de fabricantes de triângulos, pedis e outros instrumentos de muitas cordas e harmonias.
Glauco — Não, aparentemente.
Sócrates — Admitirás em nossa cidade os fabricantes e os tocadores de flauta? Não é este instrumento que pode emitir mais sons, e os instrumentos que reproduzem todas as harmonias não são imitações da flauta?

A REPÚBLICA – 380 a.C. – PLATÃO
Leia: O CARÁTER DO CANTO E DA MELODIA NA ANÁLISE DE SÓCRATES – LINK

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