A origem do cristianismo em diálogo

Diálogo de Ivani Medina e Juarez Barcellos, publicado no artigo “O Império Romano e o Cristianismo”, entre 5 de agosto e 11 de dezembro de 2013.


Ivani Medina:

5 de agosto de 2013 às 15:04

A história do surgimento do cristianismo faz parte da sua doutrina (Atos), não da história propriamente dita. Não se pode considerar o acatamento do Novo Testamento como científico, pois não é. Portanto, essa questão ainda é tratada de forma ideológica. Uns engolem tudo que seja contrário à versão oficial apenas por se contrário. Por exemplo: discordo que Constantino seja o pai do cristianismo, a despeito da sua participação. Quando ele nasceu o cristianismo contava com mais de século de existência. Constantino conheceu Lactâncio na corte de Diocleciano, na qual o filósofo cristão conspirava abertamente contra o sistema religioso que sustentava a tetrarquia. Portanto, os cristãos primitivos (possivelmente) nunca pisaram em Jerusalém e pertenciam as classes abastadas. A pátria do cristianismo foi a Ásia Menor. O Novo Testamento continua a ser um arranjo literário sem confirmações históricas. O motivo do surgimento do cristianismo foi o crescimento do proselitismo judaico nos três primeiros séculos. O cristianismo é o antídoto grego (com o apoio de uns poucos latinos) contra o judaísmo.

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/a-antiga-dec-ncia-crist

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/e-o-mundo-ocidental-quase-foi-judeu


Juarez Barcellos:

6 de agosto de 2013 às 13:40

Olá, Medina.

A História Sagrada, para ser bem explicada, precisa da História Profana, pois, elas estão entrelaçadas; porém, não depende de confirmações científicas, pois, se assim fosse, alguns cientistas já a teriam eliminado dos estudos humanos, por não confirmarem a existência de Deus, ou de deuses. Realmente, ser contrário ou favorável não é suficiente para dar crédito a uma informação, não importa de onde, ou de quem ela venha; é fundamental buscar novas fontes, pois, existem muitas informações tendenciosas sendo transmitidas em todas as árias. Vale lembrar que no final do século passado a discussão científica sobre aquecimento global estava no campo das prioridades, e atualmente, a informação é contestadíssima. O que importa é que as opiniões sejam sempre respeitadas e debatidas em suas divergências.
Muito obrigado por sua contribuição. Juarez Barcellos de Paula.


Ivani Medina:

6 de agosto de 2013 às 14:33

Olá Juarez,

Não se fala em história sagrada e história profana, fala-se em história. O que você chama de entrelaçamento eu chamo de favorecimento ideológico. Pelo fato de a nossa cultura religiosa cristã ter imposto e monitorado a educação e o ensino por séculos a fio, esse tipo de favorecimento ainda se impõe e se acha no direito disto. Não é à toa a grande infiltração de teólogos nesta disciplina e de historiadores engajados. Deus e deuses não vêm ao caso, mas o Jesus histórico sim. É uma farsa como todo o alegado cristianismo do primeiro século. Esta não é uma questão opinativa, mas de objetividade científica e não de subjetividade religiosa.

Saudações.


Juarez Barcellos:

7 de agosto de 2013 às 10:58

Medina, concordo com você em relação à educação religiosa imposta, não deve ser assim. A livre escolha, a liberdade de expressão e o acesso à informação são valores fundamentais, para a sociedade atual. Com relação ao Jesus histórico, nenhum resultado de pesquisas alterará o rumo do cristianismo, porque a fé das pessoas ignora as informações racionais. Da mesma forma, não há milagre ou doutrina bem pregada que faça um céptico crer em Deus, em profetas, em promessas, muito menos no próprio milagre. O grande problema do cristianismo, e de tantos outros credos, não está na fé das pessoas e nem na falta de confirmação de dados históricos, mas sim, no oportunismo dos homens tendenciosos. — “Logo após a expulsão dos loyolistas (Jesuítas) de todos os domínios portugueses em 1759, o governador da capitania, D. José I, enviou um ofício ao Secretário de Estado, Sebastião José de Carvalho e Melo – o Marquês de Pombal – informando a ereção de freguesias e vilas nos locais onde existiram aldeias da “Companhia de Jesus” para facilitar a cobrança dos dízimos” — (Revista de Humanidades, UFRN, p. 5). Nesta frase temos: um ato marcante na história do Brasil, uma classe de educadores evangelistas, um pais colonizador, um representante religioso, um documento oficial de caráter informativo, um secretário de Estado, uma referência às criações das cidades, um objetivo específico e um imposto eclesiástico. Conclusão: todos estes itens, com suas virtudes e enganos, fazem parte da História do Brasil, e não há como separá-los.

Felicidade, Medina.


Ivani Medina:

7 de agosto de 2013 às 12:37

Juarez, quando me referi à cultura religiosa, me referi à imposição do cristianismo no mundo inteiro. A ousadia de substituir a razão pela crença não podia dar certo mesmo. Amordaçaram a história para isso. Foi a religião que invadiu o terreno da história e não o contrário. É ai que me coloco: não sou contrário à fé religiosas das pessoas. Hoje isto pode ser entendido como opção, mas no passado custava a vida de quem não cedesse. A questão é que nunca houve Jesus histórico algum. Creio que o fato não venha obstar o Cristo da fé. O que não concordo é que se continue a ensinar mentiras porque um dia alguns consideraram necessário fazê-lo. Esse dia a muito ficou para trás e a verdade sempre dá mais segurança, além de ser uma obrigação do magistério. O meu interesse não está em desacreditar a religião, mas moralizar o ensino de história.

Saudações


Juarez Barcellos:

8 de agosto de 2013 às 11:17

Olá, Medina; proponho-te prosseguirmos partindo da “moralização da história”. Os livros didáticos, em sua maioria, concentram suas informações religiosas no cristianismo, notoriamente. Muitos países ainda têm alguma religião como oficial, e alguns proíbem a introdução de religiões não oficiais. De forma global, a moralização da história se daria pela ampliação dos temas religiosos, incluindo maior esclarecimento sobre outras crenças, ou pela exclusão dessa disciplina para evitar que os autores expressem de alguma maneira suas opiniões e preferências? Qual seria o princípio dessa moralização?

Um abraço! “Pode me contatar, enviar sugestões, críticas, textos, referências, etc. também por professorjuarezbarcellos@yahoo.com“.


Ivani Medina:

8 de agosto de 2013 às 12:06

Olá, Juarez.

Proposição aceita. O meu entendimento e interesse no que se refere ao termo “moralização” se aplica exclusivamente a história ocidental. Claro que respingos á história oriental serão inevitáveis, como no caso do islamismo, pois não percebo nada de mais relevante na história do Ocidente do que o surgimento do cristianismo.

O estudo do cristianismo real interessa não só a história, mas às demais disciplinas. No entanto, o pontapé inicial cabe à história, sem dúvida alguma. A história precisa se lavar das invenções do Novo Testamento e mergulhar profundamente nos fatos que culminaram com a criação da nossa cultura religiosa. A nossa cultura ocidental ainda é uma cultura religiosa, mas precisa caminhar firmemente para a maturidade, no sentido amplo da palavra. O princípio dessa moralização seria a abertura da caixa preta do cristianismo.

Grato por ter disponibilizado o seu e-mail.

Saudações.


Juarez Barcellos:

13 de agosto de 2013 às 22:23

Como vai, Medina? Desculpa a demora no contato; caso queira, podemos continuar a usar esta página para rascunhar nosso projeto e depois criar postagens e um e-book para uso livre. Acredito que as pequenas divergências não nos impedirão de realizar a ideia, mas sim, que podem ser um diferencial no resultado. Se estiver de acordo, deixo sob tua responsabilidade a criação de um sumário ou outra forma para começarmos.
Um abraço.


Ivani Medina:

14 de agosto de 2013 às 8:27

Olá, Juarez.

Creio que, como se trata de um assunto público, devamos continuar aqui. Isto é interessante porque pode contar com a participação e a colaboração de outros interessados. Uma vez que a minha proposta é abrir a caixa preta da origem do cristianismo, o que implica na aposentadoria do Novo Testamento como referência histórica, eu estimaria saber no que divergimos daí. Devo esclarecer que não me disponho a dar prosseguimento à farsa sob hipótese alguma.

Um Abraço.


Juarez Barcellos:

14 de agosto de 2013 às 19:37

Boa noite, Medina.

Nossas divergências pedem estar nas fontes de pesquisas, nas formas de mencionar pontos específicos, dentre outros; todavia, quanto à origem do cristianismo e a exclusão do Novo Testamento como fonte de referência histórica, não vejo problema. Ainda assim, afirmo que no campo da fé, também há liberdade, tanto de expressão, quanto de opinião, por isso, devemos deixar claro para os leitores que não estamos tratando de fé e sim de história. Resta alguma dúvida?


Ivani Medina:

15 de agosto de 2013 às 10:17

Bom dia, Juarez.

Ótimo que assim seja, pois as diferenças representam possibilidades de ganho. Aqui vão cinco exemplos do que eu considero uma vergonha historiográfica.

  1. “E eu próprio, numa polêmica contra um desses amadores que contestam, com uma certa facilidade, a existência de Jesus, me tinha proposto demonstrar que Descartes era também um mito todo ele criado pelos jesuítas de La Flèche, preocupados em fazer reclamo do seu colégio”. MARROU, Henri Irénée, Do Conhecimento Histórico, Editorial Áster, Lisboa, 2a edição, p. 124.
  1. “Como o dedicado rei mártir espartano Agis, e o aristocrata mártir romano Tibério Graco, Jesus dedicara sua vida ao povo sem recorrer à força, nem mesmo para sua autodefesa. Mas ao contrário desses dois grandes espíritos representativos da ascendência helênica, Jesus era filho do proletariado – filho de um carpinteiro da aldeia do distrito da Galiléia, na Celessíria – e seu povo era a humanidade toda”. TOYNBEE, Arnold J., Helenismo – História de uma Civilização, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1983, p.200/201.
  1. “O principal alicerce da nova cultura foi a religião cristã, cujo fundador, Jesus de Nazaré, nasceu numa cidadezinha da Judéia por volta do começo da era cristã e foi executado cerca de trinta anos depois, no reinado de Tibério […] Enquanto grande parte das outras religiões giravam em torno de figuras imaginárias, criaturas de lendas grotescas, o cristianismo possuía como fundador um indivíduo histórico, de personalidade bem definida.” BURNS, Edward McNall, História da CIVILIZAÇÂO OCIDENTAL, O DRAMA DA RAÇA HUMANA, Editora Globo, Porto Alegre, 1979, volume 1, p. 256 e 259.
  1. “Jesus, cuja religião deveria revolucionar o mundo, viveu ignorado de quase todos os seus contemporâneos. A sua história é apenas conhecida através da segunda parte da Bíblia, o Novo Testamento, isto é, a “Nova Aliança”; nele se encontram, em particular, quatro narrações da vida de Jesus, chamadas Evangelhos: segundo São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João.” ALBA, André, História Universal – ROMA, editora Mestre Jou, São Paulo, 1964, p.186.
  1. “[…] Contudo, há poucos historiadores modernos que discordam da afirmação de que Jesus de fato existiu. Histórias que foram escritas após a morte de Jesus (como as do historiador judeu Flávio Josefo, e dos historiadores romanos Tácito e Suetônio) contêm breves comentários sobre ele. Jesus não é um personagem de ficção”. GAARDER, Jostein, O livro das Religiões / Jostein Gaarder, Victor Hellern, Henry Notaker, São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 153 e 154.

Vergonha porque nunca existiu nada que comprovasse a existência de Jesus e do cristianismo palestino no primeiro século. Esse personagem só é considerado histórico porque os historiadores cristãos assim o desejaram e (ou) foram obrigados a isso. “O historiador não avança sozinho ao encontro do passado. Aborda-o como representante do seu grupo”. MARROU, Henri Irénée, Do Conhecimento Histórico, Editorial Áster, Lisboa, 2a edição, p. 256.

Concordo inteiramente com Raymond Aron quando disse que:

“A verdade histórica é a mais ideológica de todas as verdades científicas […] Os termos de subjetivo e de objetivo já não significam nada de preciso desde o triunfo da consciência aberta […] A verdade histórica não é uma verdade subjetiva, mas sim uma verdade ideológica, ligada a um conhecimento partidário”. (R. Aron cit. P. Marrou) MARROU, Henri Irénée, Do Conhecimento Histórico, Editorial Áster, Lisboa, 2a edição, p. 269.

Outro exemplo pode-se constatar neste parágrafo de Toynbee.

“O encontro do helenismo com o judaísmo, em 175 a.C. (início da tentativa de se transformar Jerusalém numa cidade-Estado do tipo grega) e a partir de então, foi o maior acontecimento isolado da história helênica. Quando Roma derruba as outras potências do mundo helênico,“a Hélade cativa tinha cativado seu conquistador e introduzido a civilização no rústico Lácio”. Mas a Hélade conquistadora não conseguiu cativar a Jerusalém cativa, e sua tentativa de introduzir a civilização, tal como a entendia, na Judéia rústica, foi rejeitada com indignação. Por fim, a Hélade frustrada chegou a termos com a Judéia indomável, adotando uma versão helenizada da sua religião fanática. Esse tempestuoso encontro e a final união do helenismo com o judaísmo deram origem ao cristianismo e ao islamismo, duas religiões heleno-judaicas que são hoje professadas pela metade da raça humana”. (TOYNBEE, 1983, p. 173)

A Hélade frustrada chegou a termos com a indomável Judéia e esse tempestuoso encontro deu origem ao cristianismo e ao islamismo? Onde isso está claramente explicado? Em livro algum. Ocultar com argumentos verborrágicos e teológicos tem sido a função da nossa historiografia. Para mim, a versão oficial da origem do cristianismo é a grande imoralidade na história que precisa ser sanada.

Sim, entendo que pelo campo da fé saudável a verdade e a história estão livres de constrangimentos e sempre estarão.


Juarez Barcellos:

18 de agosto de 2013 às 13:39

Olá, Medina.

Relendo a postagem acima percebi uma citação a atos que estava, de fato, fora do contexto, e a retirei; o que acredito que tenha sido o motivo de seu primeiro comentário.
Seguindo em frente: suas observações com relação aos cinco exemplos acima fazem sentido, pois um historiador não deve introduzir suas convicções políticas ou religiosas ao contexto da informação. Assim caracteriza-se uma ditadura cultural, onde o poder da informação histórica não está nos fatos, mas no interesse partidário sobre ela.
Não há consenso entre os historiadores sobre vários pontos, e talvez esse assunto que estamos tratando seja um dos mais complexos, pois, o que se tem não serve de base histórica e o que se descobre gera ainda mais questionamentos. Estou lendo “A Idade Média, Nascimento do Ocidente”, de Hilário Franco Júnior – editora brasiliense; o autor afirma, logo na introdução, que não se pode afirmar que a leitura feita sobre a Idade Média no século XX é definitiva – “De fato, a historiografia é um produto cultural que, como qualquer outro, resulta de um complexo conjunto de condições materiais e psicológicas do ambiente individual e coletivo que a vê nascer.” (p 14, p 2º).
Na busca por informação sobre a origem do cristianismo, podemos encontrar textos ligados ao Império Romano (Constantino), à Igreja Católica, ao Novo Testamento e aos Apócrifos, creio que o desafio está em ir além, e ainda mais, expor informações oriundas de outras fontes de forma clara e convincentes, mas vamos em busca.
Forte abraço!


Ivani Medina:

18 de agosto de 2013 às 18:41

Olá, Juarez.
O que me incomodou de início, não por responsabilidade sua, foi:
• Nero fez a primeira perseguição aos cristãos;

É sabido que esta afirmação baseada em Tácito veio de um documento falsificado. Josefo esteve em Roma no mesmo ano de 64, e, assim como os apologistas e outros tantos escritores, não fez menção alguma a um fato que necessariamente haveria de ser bastante rumoroso. Aliás, a invenção foi uma prática cuja notoriedade, por si só, já desqualifica toda a versão oficial da história do cristianismo. É irritante ver a continuação de tantas imposturas alegadamente históricas. É um nojo!

“A humanidade teria então uma história comum e uma direção única: a vitória romana e a salvação cristã. A história da salvação romano-cristã reúne tempo e eternidade, história e Cristo. Foi uma idéia absolutamente nova, que nem os judeus haviam chegado a formular, obcecados com a idéia de “um povo eleito.” […] Os eventos históricos eram manifestação de Deus, cuja vontade devia ser decifrada. O destino das nações, as lutas políticas se submetiam à vontade divina. Essa idéia nova criou uma história nova – a história universal.” (REIS, 2003, p. 19)

REIS, José Carlos. História & Teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade. Rio de Janeiro: FGV, 2003.

Desgraçadamente, o interesse da nossa cultura é preservar a si mesma, e a história que se dane. O que a gente não pode e não deve é ficar servindo de antena repetidora, pois o nosso compromisso (aí vai do íntimo de cada um) é com a verdade ou com o mais próximo que consigamos chegar dela. Não podemos aceitar o triste papel que nos foi imposto por “excesso de excelências”.

No momento estou interessado no proselitismo judaico nos três primeiros séculos. Tenho tido dificuldade de encontrar material confiável a respeito. Mas continuarei tentando. Aí vai um filme que fala um pouco do meu sentimento.

http://www.saudadeeadeus.com.br/filme1369.htm

Forte abraço,
Medina


Juarez Barcellos:

25 de agosto de 2013 às 2:03

Olá, Medina.

Ao citar Tácito e Josefo, tenho como exemplo do que disse Hilário Franco Júnior, a quem eu me referir no comentário anterior, quando ele afirma que a historiografia resulta de um complexo conjunto de condições materiais e psicológicas do ambiente individual e coletivo que a vê nascer.

Veja se o documento tido como falsificado é o que traz o seguinte texto, e se for, como se conclui o fato:

“Essa, aliás, foram as precauções de sabedoria humana. A próxima coisa seria procurar meios de propiciar os deuses, e recorreu-se à Livros sibilinos, pela direção de que as orações foram oferecidas para Vulcanus, Ceres, e Proserpina. Juno, também, se aplacou para com as matronas, em primeiro lugar, no Capitólio, e, em seguida, na parte mais próxima da costa, de onde adquiriu-se a água para aspergir o templo e a imagem da deusa. E havia banquetes sagrados e vigílias noturnas celebrada por mulheres casadas. Mas todos os esforços humanos, todos os presentes luxuosos do imperador, e as propiciações dos deuses, não baniram a crença de que o sinistro incêndio foi o resultado de uma ordem. Consequentemente, para se livrar do relatório, Nero colocou a culpa e infligiu as mais requintadas torturas em uma classe odiada por suas abominações, chamada cristãos pelo populacho. Christus, de quem o nome teve sua origem, sofreu a penalidade extrema durante o reinado de Tibério às mãos de um de nossos procuradores, Pontius Pilatus, e uma superstição maligna, assim, marcada para o momento, mais uma vez quebrou-se não só na Judéia, a primeira fonte do mal, mas até mesmo em Roma, onde todas as coisas horríveis e vergonhosas de todas as partes do mundo encontraram o seu centro e se tornaram populares. Assim, a prisão foi o primeiro feito de tudo que se declarou culpado, então, sobre suas informações, uma imensa multidão foi condenada, pelos crimes de incendiar a cidade e de ódio contra a humanidade. Zombaria de todo tipo foi adicionada às suas mortes. Cobertos com peles de animais, eles foram rasgados por cães e pereceram, ou foram pregados em cruzes, ou foram condenados às chamas e queimados, para servir como iluminação noturna, quando o dia tinha expirado.” TÀCITOS, Anais – livro XV.

Embora esteja ansioso para assistir o filme, ainda não consegui, nem pela internet, nem por locadora; vou encomendar em DVD.

Medina: é sempre um prazer me comunicar com você; vamos prosseguir.
Um forte abraço, Juarez


Ivani Medina:

25 de agosto de 2013 às 10:07

Olá, Juarez.

Sim, é esta a versão a qual me referi. O suposto Tácito repete a história de Jesus de Nazaré para avalizá-la e descreve as barbaridades as quais os cristãos foram submetidos. Nero nem estava em Roma quando o fogo começou. Estava em sua cidade natal, Antium (Anzio). Nenhum dos apologistas cristãos do século II menciona esta bobagem forjada e interpolada. Josefo esteve em Roma no mesmo ano do incêndio e não faz referência alguma a tão escandaloso evento. Plínio o Velho (23-79), que escreveu História Natural, publicada em 77, também não. Ora, porque apenas Tácito registraria tal abominação?

“Nem todas as coisas verdadeiras são a verdade, nem deveria aquela verdade que apenas parece verdadeira segundo opiniões humanas ser preferida à verdade verdadeira, segundo a fé.” Clemente (citado por M. Smith, Clemente de Alexandria, p446)
Notamos que Flávio Josefo (37-100), Plínio o Moço (61-114), Suetônio (69-112) e Tácito (56-120) têm algo em comum: todos estiveram ligados à administração do Império Romano e desapareceram no início do século II. Portanto, todos os originais desses documentos deviam estar guardados numa mesma sala. Quando o cristianismo chegou ao poder, no século IV, gregos cristãos substituíram os gregos pagãos que há muito eram funcionários do governo. Os pais da história tiveram toda facilidade para analisar e consumar as “evidências” de uma historicidade forjada. Tamanho empenho e risco não haveria de ser gratuito, quem frauda e mente o faz para esconder algo que lhe pode ser prejudicial. A ortodoxia cristã, que necessitava de um Jesus histórico, teve que lutar por muito tempo contra o gnosticismo cristão a ameaçar as suas verdades.
Até hoje, mesmo com todo o progresso da investigação histórica, nada foi encontrado que corrobore com a versão desse suposto cristianismo palestino do século I. Portanto, tudo o que nos foi apresentado como “evidências históricas extra-bíblicas” torna-se sem efeito.

É-me grato esse contato contigo. Dificilmente encontramos pessoas interessadas, com boa bagagem e, principalmente, com liberdade e honestidade intelectual para tratar deste assunto. Como já comentei, os nossos renomados historiadores que já se foram ou ainda não, os nossos atuais doutores filósofos (PhD) e mestres em história que defendem a crença cristã e a bíblia, como fonte digna de crédito, não estão preocupados com a reconstrução do passado simplesmente. São eles o fio de sustentação a dessa mentira histórica. A história faz parte da educação e a educação é o coração de uma cultura. Se ele parar, ela morre. Portanto, esses historiadores cristãos dão sobrevida a nossa cultura cristã acreditando que é o melhor que podem fazer pelo ofício de educar. Acreditam no preconceito ideológico de que o Homem precisa ser enganado para reagir positivamente. Mas nem todos pensam assim. O surgimento da Internet deu voz a quem nunca teve e a cultura dominante nunca se viu tão ameaçada ao ver a sua mentira por um fio.

[…] a educação moral sem base religiosa desanda, esvai-se geralmente em frases de efeito, e não produz resultados práticos, exceto numa ou noutra pessoa de fina sensibilidade ou de grande força de vontade, capaz de reconhecer nas regras éticas imposições da própria natureza, que se precisa aceitar para viver bem. […] o cerne da sua doutrina é perene e válido, pois ele se apóia nas regras da reta razão, no acordo com a natureza intelectual do homem, e nas palavras de Cristo, que não passarão jamais, conforme a sua divina promessa. (NUNES, 1978, p. 104) NUNES, Ruy Afonso da Costa. História da educação na Antigüidade cristã. São Paulo: Pedagógica Universitária e Editora da Universidade de São Paulo, 1978.

Forte abraço,

Medina


Juarez Barcellos:

26 de agosto de 2013 às 21:23

Olá, Medina.

Gostaria de explanar contigo mais amplamente o papel de Flávio Josefo no contexto da influência do cristianismo implantado na história. Seus documentos não apresentam nada sobre cristãos, sua influência maior parece estar focada na guerra; de que forma você vê essa a diferença de pontos de vista entre Tácito e Josefo, levando em conta que os documentos de ambos poderiam ser adulterados para favorecer a disseminação tendenciosa de opinião política, filosófica e religiosa de grupos detentores do poder.
E ainda, como você analisa a descrição feita no texto abaixo, no qual, o autor apresenta aspectos negativos no documento de Flávio Josefo.

“O fundo messiânico do conflito foi completamente omitido, assim como o auxílio dos judeus da Mesopotâmia e as deserções de soldados romanos. Josefo oculta igualmente a vincada hostilidade dos judeus para com a ocupação romana, o papel do sacerdócio nas lutas faccionais e pretende, com a sua própria construção historiográfica, ilibar o povo judaico de responsabilidades na insurreição e no modo catastrófico como essa evoluiu perante as autoridades romanas e o seu potencial público greco-latino. Para restaurar a imagem do povo judaico perante as autoridades e a sociedade romana, foi necessário encontrar o grande bode expiatório da guerra: os Zelotas, aos quais Josefo associa os Sicários e os Idumeus. Há, portanto, fortes motivações políticas na redação da Guerra Judaica que devem ser devidamente sopesadas (Feldman, 1999: 904).” João Pedro Vieira – Política, Utopia e Sectarismo Religioso… REVISTA SAPIENS n.º 2, 2009.
Saudações
Juarez


 Ivani Medina:

27 de agosto de 2013 às 8:54

Juarez, a forma que eu vejo Tácito e Josefo é exatamente a mesma: a grande oportunidade da falsificação ridiculamente executadas. A mesma linguagem absurdamente exagerada nota-se nas descrições dos martírios. O fantástico, para o bem e para o mal, era a tônica da literatura helenística. No entanto, observamos a preocupação de Josefo com a possibilidade das injúrias da parte dos gregos. É por esses sintomas que eu analiso. Portanto, a diferença ou semelhança entre seus escritos adulterados nada significa no contexto que propus. Josefo não omitiu as “barbaridades de Nero” intencionalmente, mas porque elas nunca existiram.

Não sou um defensor de Josefo, essa figura tão controvertida. Quanto as fortes motivações políticas da Guerra Judaica tenho cá as minhas dúvidas. Pelo descrito, são os zelotas que a instigam o tempo todo estimulados por alguns judeus sombrios. Sabemos que os descendentes de convertidos idumeus, galileus e samaritanos não eram aceitos no seio da sociedade judaica como judeus de fato e de direito. Valiam menos do que um cão.

Na guerra civil de 66 fizeram de tudo para empurrar os judeus para uma guerra absurda que eles não desejavam. Os judeus sabiam que seria uma guerra perdida quando ainda contavam com o favorecimento das antigas leis romanas ao judaísmo. Se eles viviam bem com aquelas concessões, para quê uma guerra suicida?
A literatura cristã trata os galileus como judeus de fato. Mas acontece que eram estes, os galileus, que nada tinham a perder com uma guerra, pois eram explorados pelos judeus com os impostos do templo e pelos romanos com suas taxas abusivas sobre sua produção. Realmente, parece que de fato Josefo ocultou mais do que sabia.

Saudações,
Medina


Juarez Barcellos:

29 de agosto de 2013 às 14:45

Olá, Medina.

Influenciados pela literatura helenística, ainda assim, eles concordaram em alguns pontos e divergiram em outros. De fato a motivação e o foco de Flávio Josefo, além de sua contemporaneidade com Nero, fizeram um aparente sentido nas diferenças apresentadas, mas não me cabe querer validar ou anular qualquer relato histórico. Todo governo e forma de governo é incapaz e ineficiente para atender à pluralidade e os anseios de seu povo, quanto mais de um império governado por um menino; o jovem Nero foi amado e também odiado, e seus sucessores também não foram felizes.
Em relação à guerra, a seita dos Zelotes é responsabilizada por ter incitado, creio que deva somar-se a esse fator, a insatisfação dos excluídos idumeus, galileus e samaritanos, como você bem relatou, e o histórico judaico que não condiz com submissão ou rendição a domínio externo.

Ainda sobre Flávio Josefo, afirma-se que em sua grandiosa obra “Antiguidades Judaicas” cita João Batista, Herodes e Pilatos, mas não diz sobre Jesus, nesse sentido, afirmando que o texto a seguir é produto de falsificação, mesmo não tendo nele nenhum apoio convicto à messianidade de Jesus:

“Naquela época vivia Jesus, homem sábio, de excelente conduta e virtude reconhecida. Muitos judeus e homens de outras nações converteram-se em seus discípulos. Pilatos ordenou que fosse crucificado e morto, mas aqueles que foram seus discípulos não voltaram atrás e afirmaram que ele lhes havia aparecido três dias após sua crucificação: estava vivo. Talvez ele fosse o Messias sobre o qual os profetas anunciaram coisas maravilhosas.”

Forte abraço;

Juarez


Ivani Medina:

29 de agosto de 2013 às 20:25

Olá, Juarez.

Você tem uma atitude mais prudente e respeitosa para com a cultura dominante. Não é o meu caso, porque tudo faço para livrar da influência dela no que respeita a história. Aproveito para lhe enviar mais um link.

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/mais-um-cap-tulo-de-uma-hist-ria-mal-contada

“Ainda sobre Flávio Josefo, afirma-se que em sua grandiosa obra “Antiguidades Judaicas” cita João Batista, Herodes e Pilatos, mas não diz sobre Jesus, nesse sentido, afirmando que o texto a seguir é produto de falsificação, mesmo não tendo nele nenhum apoio convicto à messianidade de Jesus:”

Poderia, por favor, me explicar um pouco mais o que motivou este seu comentário?
Forte abraço,

Medina.


Juarez Barcellos:

29 de agosto de 2013 às 23:22

Olá, Medina.

A prudência, no meu caso, se dá por não ter grande domínio do assunto, por isso, volto a reafirmar apreço neste contato contigo.

Em relação ao comentário, o propósito foi apresentar um texto polêmico de Josefo, assim como citei de Tácito, para que você viesse a expor sobre ele uma explanação. Creio que trabalhar esses pontos desses grandes autores seja importante para o nosso propósito.
Boa noite!


Ivani Medina:

30 de agosto de 2013 às 0:01

Boa noite, Juarez.

Entendo e é recíproco. O comentário atribuído a Josefo há muito foi descartado. Quanto ao de Tácito, ainda insistem nele porque Engels deve tê-lo considerado. Pelo menos, é o que me parece na sua crítica a Bruno Bauer. Como o marxismo ficou muito tempo como o único rival da farsa cristã, o falso Tácito ainda encontra defensores. Duvido que um pesquisador arguto como Engels não tenha desconfiado. Porém, como ele queria Jesus Cristo como garoto propaganda de uma revolução proletária que nuca existiu…
Agradecido pela sua atenção.


Juarez Barcellos:

1 de setembro de 2013 às 1:07

Boa noite, Medina.

Permita-me citar outra vez Flávio Josefo, num texto também polêmico para nosso raciocínio; e qual a tua conclusão sobre ele:

[…] Festus estava morto, e Albinus estava viajando; assim ele reuniu o sinédrio dos juízes, e trouxe diante dele o irmão de Jesus, o que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros; e quando ele formalizou uma acusação contra eles como infratores da lei; ele os entregou para serem apedrejados […]

Forte abraço!

Juarez


Ivani Medina:

1 de setembro de 2013 às 10:31

Bom dia, Juarez.

É sempre um prazer esse contato contigo. A citada referência atribuída a Josefo tem o valor de todas as demais, dele e de outros, quando falam de Jesus. Mostra o esforço da ortodoxia cristã em fabricar evidências históricas, uma vez que o mito do Cristo não atendia às suas necessidades. Precisavam do homem-deus e ele tinha que ser judeu. De posse da antiga documentação romana por tanto tempo se fez o que quis. Poderiam ter feito melhor? Claro, mas o que fizeram foi isso.

Por exemplo: existem detalhes que ficaram para trás e muitos nem se deram conta deles como provas da falsa origem judaica do cristianismo, e não se pode dizer que foram acréscimos posteriores porque estão no início da versão.

Evangelho:

O termo grego “euangelion” é de origem grega. “eu” significa “bom, agradável” e “angellein” significa “anunciar, contar”. Vem de “angelos” que significa mensageiro. Conta-se que em princípio essa palavra tinha uso militar. Um mensageiro era enviado do campo de batalha para comunicar o final de uma guerra. Havia comemoração e o portador das “boas novas” recebia uma recompensa pelo cumprimento da missão e da alegria que levava a todos. Com o tempo essa prática se estendeu àquele que levava a resposta positiva de um oráculo, comunicava a chegada de um soberano etc. Enfim, a boa notícia trazida pelo portador.

“A palavra evangelho, que significa, em grego, “boa nova”, não tem na boca dos representantes da Igreja outro sentido senão o de uma comunicação sobre a obra do ‘Filho de Deus’ que aceitou o martírio para resgatar os pecados do gênero humano. Mas, Odisséia de Homero (Cap. XIV, versículo 152 e 166) e, no final do século I antes da nossa era, nós o encontramos empregado sem qualquer relação cristã, em uma inscrição em Pirene, antiga cidade da Jônia, na qual se comemora o dia do nascimento do Imperador Augusto.” (Ogis, 458, II 40-41) (LENTASMAN, 1963, p.35)

LENTSMAN, Jacob, A origem do Cristianismo, São Paulo: Fulgor, 1963.

Cristo:

O título Cristo (Khristós) era a forma grega para apalavra egípcia “karast” ou “Krast” que significa ungir o defunto com óleo perfumado, em preparação para o funeral. Essa unção era utilizada no antigo culto de Osíris, que visava manter o corpo conservado para a outra vida. Os gregos incorporaram essa prática ao culto sincrético de Serápis. Após sua morte, como Osíris, Serápis tornou-se o ungido ou Karast, deus dos mortos e do submundo. Por isso os adoradores desse deus heleno-egípcio eram chamados de cristãos. Ungiam a alma com a confiaça em Deus e na vida eterna. O termo “Messias”, do hebraico “Maschiach”, significa “O Consagrado” e não “O Ungido”. A unção com óleo perfumado ocorria no ato da consagração do líder. Portanto, essa tradução oficialmente aceita mais parece uma conta de chegar.

http://stephanhuller.blogspot.com.br/2009/09/letter-of-hadrian-to-servianus.html

http://www.egyptorigins.org/osirisandjesus.htm

Sabe-se que a eucaristia tem a origem no culto do deus Mitra e não no judaísmo. A ideia de beber o sangue e comer a carne humana é mais do que nojenta para os judeus. O consumo de carne segue regras restritas no judaísmo. Esta dever estar dessangrada (Kosher, limpa). Carne humana nem pensar rsrs, ainda mais de um homem-deus. Outro absurdo inominável para eles. Portanto, aí está nesta simbologia para ingênuos mais uma evidência da farsa da procedência judaica do cristianismo.

http://www.websitesonadime.com/ffwic/mithra.htm

“Não só os primeiros cristãos se apoderaram quase completamente dos mitos e ensinamentos dos seus mestres egípcios, mediados em muitos casos pelas religiões de mistérios, e pelo judaísmo nas suas expressões, mas também fizeram tudo ao seu alcance para destruir as evidencias decisivas do que aconteceu ─ pela falsificação e outras fraudes, queimando livros, eliminando personalidades e cometendo assassínios propriamente ditos. No processo, apropria história cristã, que muito provavelmente começou como uma espécie de encenação dramática espiritual, juntamente com uma fonte de “aforismos” baseados em material egípcio, foi convertida em uma forma de história em que o Cristo do mito tornou-se uma pessoa de carne e osso identificada como Jesus (Yeshua ou Joshua) de Nazaré. […]” (HARPUR. 2008 p. 26)

[…]. Não há vida sem luta: nos séculos II e III os primeiros escritores cristãos tiveram de polemizar contra os inimigos exteriores: após o triunfo, coube-lhes defender a fé contra a heresia e, ao mesmo tempo, instruir seus fies e guiá-los numa vida terrena semeada de emboscadas. O dogma, o ensino, a moral, eis os objetos de seus tratados doutrinais, de seus sermões e suas cartas.” (AYMARD; AUBOYER, 1958, p. 62)

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. História geral das civilizações. São Paulo: Difusão Européia do Livro. 1973.

“nos séculos II e III os primeiros escritores cristãos” Não existiram escritores cristãos no século I porque alegado cristianismo (de Jesus) desse século é puramente literário. Por isso nada foi encontrado em dois mil anos de busca e jamais o será. Não é à-toa que evidências para argumentações em contrário são mais fáceis de encontrar. As falsificações continuam como parte da tradição ortodoxa dos cristãos apaixonados e pouco honestos intelectualmente. Tudo pela fé!

Comparo um cristão convicto e bitolado (pois aquele que tem conhecimento histórico sério da origem da própria religião não se enquadra aí) a uma pessoa perdidamente apaixonada. Está disposta até dar a vida por aquela. Percebe seus feitos leves e graves, mas prefere ignorá-los em benefício do prazer sentimental. Normalmente, com o andar da carruagem, esse prazer vai murchando e os defeitos incomodando mais e mais. Assim vai. Até que um dia entende a pessoa amada como inadequada àquele momento da sua vida. No entanto, alguns vivem e morrem “apaixonados” por causa da insegurança e da endorfina. Fé e mentira não combinam.

Forte abraço.


Juarez Barcellos:

3 de setembro de 2013 às 21:45

Olá, Medina.

Vejo razão no que você comentou sobre tradução e ritual, com relação a este, mais precisamente à transubstanciação; é realmente um absurdo.

Com relação à crítica mítica, creio que a relação entre o místico e o religioso tenha fundamento mais sólido entre críticos e estudiosos.

“A história da tentação é igualmente insatisfatória, seja interpretada como sobrenatural, ou como simbólica, seja de uma luta interior ou de eventos externos (como, por exemplo, na interpretação de Venturini, onde a parte do Tentador é interpretada por um fariseu); é simplesmente lenda cristã primitiva, construída de sugestões do Antigo Testamento” (SCHWEITZER, 2003: 101) – ao comentar o posicionamento de Strauss.

Concordo plenamente que fé e mentira não combinam. Vamos buscar o que é histórico e verdadeiro ampliando, desgarrados das paixões, o interesse pelos fundamentos.
Forte abraço!


Ivani Medina:

5 de setembro de 2013 às 8:38

Bom dia, Juarez.

A minha intenção não era a crítica mística ou religiosa. Apenas evidenciar a não procedência judaica de tais símbolos. Desnudar a farsa, pois questões teológicas escapam ao meu interesse. O ataque aos fariseus é o ataque ao judaísmo. No entanto, não é percebido assim por causa da tradição teológica que o encaminha a uma interpretação moralista e helenista.

Minha paixão é pela verdade histórica. Dessa eu não me livro.
Forte abraço,
Medina.


Juarez Barcellos:

5 de setembro de 2013 às 23:40

Medina, boa noite!

Disse eu, que vejo maior consistência na crítica voltada para o prisma do misticismo religioso, do que aquelas voltadas para a associação mitológica. Talvez por ver eu, pouca importância na mitologia grega, salvo sobre o ponto de vista histórico relacionado à adoção romana dos deuses gregos como símbolos de valores culturais e a filosofia voltada para o conhecimento e avanço do ser humano.

Um passo a frente, proponho uma explanação tua sobre o judeu Geza Vermés:
“Se os evangelistas tivessem pretendido relatar, como afirmam Bultmann e seus seguidores, não a vida, as idéias e as aspirações de Jesus, mas a mensagem doutrinária correspondente às necessidades espirituais e organizacionais da igreja primitiva, teriam sido mais bem orientados se adotassem a forma literária mais adequada de cartas, panfletos ou sermões, em vez de escrever uma falsa biografia” (VERMES, 2006: 178).
Um forte abraço e felicidade;

Juarez.


Ivani Medina:

6 de setembro de 2013 às 9:00

Bom dia, Juarez.

Pois é… Aí está um aspecto do assunto que me escapa pela falta de interesse. Não levo a sério quem tem Jesus como figura real. Parece-me que o judeu duvidoso Geza Vermes assim o entendia. Pelo menos, a sua formação e a quantidade de livros que escreveu a respeito de Jesus leva a crer. Conheço nada da sua obra.

Bem, diante da minha ignorância a respeito do autor e do assunto teologia, baseado exclusivamente naquilo que você me apresenta: “Se os evangelistas tivessem pretendido relatar […] as idéias e as aspirações de Jesus […] teriam sido mais bem orientados se adotassem a forma literária mais adequada de cartas, panfletos ou sermões, em vez de escrever uma falsa biografia.”

Digo que se referir desse modo a um personagem de ficção me desaponta. No mais, Vermes fala da propagação de conceitos morais e religiosos, não da história que me interessa: a secular.

Forte abraço,
Medina.


Juarez Barcellos:

8 de setembro de 2013 às 1:28

Boa noite, Medina.

Veja, por gentileza, se tem concordância com sua convicção sobre a origem do cristianismo este texto de Plínio o Moço, então governador da Bitínia (Ásia Menor), que é parte de uma carta (10.96) enviada a Trajano, imperador de Roma no início do século II:

“Senhor: É regra para mim submeter-te todos os assuntos sobre os quais tenho dúvidas, pois quem mais poderia orientar-me melhor em minhas hesitações ou me instruir na minha ignorância?

Nunca participei de inquéritos contra os cristãos. Assim, não sei a quais fatos e em que medidas devem ser aplicadas penas ou investigações judiciárias. Também me pergunto, não sem perplexidade: deve-se considerar algo com relação à idade, ou a criança deve ser tratada da mesma forma que o adulto? Deve-se perdoar o arrependido ou o cristão não lucra nada tendo voltado atrás? É punido o nome de “cristãos”, mesmo sem crimes, ou são punidos os crimes que o nome deles implica?
Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas. Outros, cidadãos romanos portadores da mesma loucura, pus no rol dos que devem ser enviados a Roma.”

Forte abraço;
Juarez


Ivani Medina disse:

8 de setembro de 2013 às 11:27

Bom dia, Juarez.

Com satisfação, meu caro.

“Senhor: “É regra para mim, submeter-te todos os assuntos sobre os quais tenho dúvidas, pois quem mais poderia orientar-me melhor em minhas hesitações ou me instruir na minha ignorância?”

Nada a comentar.

“Nunca participei de inquéritos contra os cristãos. Assim, não sei a quais fatos e em que medidas devem ser aplicadas penas ou investigações judiciárias.”

Convenhamos que seria inadmissível o absoluto desconhecimento de Plínio o Moço às alegadamente antigas atitudes persecutórias dos romanos. Lembremo-nos dos alegados “registros de Tácito” quanto a Nero. Romano algum poderia ignorar tais barbaridades e suas motivações ideológicas.

“Também me pergunto, não sem perplexidade: deve-se considerar algo com relação à idade, ou a criança deve ser tratada da mesma forma que o adulto?”

Tal dúvida perplexa, por si, evidencia que os romanos não eram as bestas sanguinárias e desumanamente indiscriminadas como foram pintadas pelos propagandistas cristãos.

“Deve-se perdoar o arrependido ou o cristão não lucra nada tendo voltado atrás? É punido o nome de “cristãos”, mesmo sem crimes, ou são punidos os crimes que o nome deles implica?”

Mais uma dúvida a desmontar o mito da perseguição insanamente cruel dos romanos. Se o nome “cristão” implicava em crime as medidas coercitivas haveriam de ser bem conhecidas das autoridades, ainda mais por um advogado como era Plínio.

“Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas.”

Ora, se Plínio escreve a Trajano pedindo orientação por não saber como agir, por que então agiu antes de obter a resposta sem saber se cometiam crime? Como os romanos não tinham o hábito de se envolver com as crenças dos povos conquistados, salvo em situações especiais, como aconteceu no final da República com o culto a Dionísio (as bacanais) e com o culto de Isis, por receio de Augusto a influência de Cleópatra e Marco Antônio, isto está em perfeita desarmonia não só com os princípios morais do suposto autor até este ponto da carta, mas também com a prática romana nesses casos. Entendo como aceitável que pessoas mudem no correr da vida, mas no correr de uma carta? Francamente.

“Outros, cidadãos romanos portadores da mesma loucura, pus no rol dos que devem ser enviados a Roma.”

Este final, então, é pra lá de absurdo.

Forte abraço,
Medina.


Juarez Barcellos:

10 de setembro de 2013 às 9:21

Medina, bom dia!

Seguindo por pluralidade interpretativa, poderíamos observar muitos outros aspectos do texto, porém, percebo que a breve resposta do imperador traz uma visão da complexidade do assunto quando diz que não há como se estabelecer uma regra geral:

“Meu caro Plínio Segundo:

Seguiste a atitude correta, exatamente a que devias ter, no exame das causas daqueles que te foram denunciados como cristãos. Não há como se estabelecer uma regra geral, que tenha valor de norma fixa. Porém, não deve ser objeto de investigação por iniciativa oficial. Se forem denunciados e confessarem, devem ser condenados observando-se a seguinte restrição: aquele que negar ser cristão, mesmo sendo suspeito com relação ao passado, e oferecer prova clara disso, sacrificando aos nossos deuses, seja perdoado por seu arrependimento.

Quanto às denúncias anônimas, não devem ser consideradas em nenhuma acusação, pois são exemplos detestáveis e não são dignas da nossa época.”

Também concordo que “bestas sanguinárias e desumanas” não pode ser a definição generalizada de uma nação, muito menos de um império; assim também, como o inverso não se aplica em hipótese alguma.

Saúde e paz!


Ivani Medina:

9 de setembro de 2013 às 10:15

Caro Juarez,

Ainda em relação às cartas de Plínio o Moço a Trajano, eu gostaria de comentar o seguinte:

“…[os cristãos] têm como hábito reunir-se em um dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; eles mesmos fazem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar sua palavra, e nem negar um depósito quando exigido. Após fazerem isto, despedem-se e se encontram novamente para a refeição…” (Plínio, Epístola 96).

“…[os cristãos] têm como hábito reunir-se em um dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; […]”

Osíris e Hórus eram deuses solares cultuados ao alvorecer, como Serápis, deus heleno-egípcio. Os religiosos deste deus eram chamados de “cristãos”, pois este deus era o Cristo. Desde o século IV a.e.c. este culto sincrético havia sido introduzido em Alexandria e, posteriormente, se espalhado pelas cidades mediterrâneas, cujos templos foram transformados em igrejas cristãs.

Forte abraço,

Medina.


 Juarez Barcellos:

10 de setembro de 2013 às 23:38

Boa noite, Medina;

Negar a existência do sincretismo mitológico entre egípcios, gregos e o cristianismo romano é grave erro, porém, alguns aspectos que ultrapassam a similaridade religiosa em relação a Osíris e Hórus devem ser bem analisados. Veja, por favor, se minha análise sobre o relacionamento familiar entre os deuses abaixo está correta:

Osíris é filho de Geb, que é amante de Nut, que é esposa de Rá;

Ísis, Néftis, Hórus (1º) e Set são irmãos gêmeos de Osíris;

O deus Hórus é filho dos irmãos Osíris e Ísis.

O deus Anúbis é filho dos irmãos Osíris e Néftis.

“…mas Ísis e Osíris foram enamorados de si e foram consortes no útero antes do seu nascimento. Alguns dizem que Arueris veio desta união e foi chamado de Hórus pelos egípcios, mas Apollo pelos gregos.” PLUTARCO, Ísis e Osíris, p 35.

Forte abraço!


Ivani Medina:

11 de setembro de 2013 às 15:26

Boa Tarde, Juarez.

Você me parece mais bem informado a respeito de mitologia, também. Como disse, “Negar a existência do sincretismo mitológico entre egípcios, gregos e o cristianismo romano é grave erro, […]”, mas, por incrível que pareça, tem gente negando. Os adventistas (não sei se todos), por exemplo, incorrem nesse tipo de erro no afã de confirmar aquilo que nunca existiu. Convidam a esmiuçar a mitologia egípcia para demonstrar que não há o carpinteiro de Nazaré ali. Como são cansativos…

Forte abraço,
Medina


Ivani Medina:

13 de setembro de 2013 às 10:06

Olá, Juarez.

Um dos motivos pelos quais a tradição criada por aqueles que tentaram transformar a fé em história continua a ser um desserviço ao estudo desta disciplina, é o seguinte: para estes, mentir para glória de Deus não é pecado. É uma obrigação. Simples assim. Por mais que nos esforcemos neste esclarecimento secular, lá vêm eles com suas antigas invenções e fraudes exigindo que provemos não existências somente para confundir e prejudicar o nosso trabalho. Honestidade intelectual não é com eles.

“Você vê a vantagem do engano? […], pois é grande o valor da fraude, desde que não seja introduzida com intenção maliciosa. Este tipo de ação não devia ser chamado de dolo, mas sim de uma espécie de boa gestão, inteligência e habilidade, capaz de descobrir maneiras onde os recursos falham, e, considerando os defeitos da mente, muitas vezes é necessário enganar para trazer maiores benefícios por meio desse dispositivo, ao passo que aquele que tem ido pelo caminho reto tem feito um grande mal para a pessoa a quem não tem enganado.” (João Crisóstomo, Tratado para o Sacerdócio, livro 1)

Um dos raros exemplos de honestidade intelectual no meio cristão foi Bruno Bauer (1809–1882), filósofo, historiador e teólogo, que negou a historicidade de Jesus. Afirmou que os evangelhos são produtos literários e que o primeiro deles foi escrito sob Adriano (117-138). Afirmou também que o cristianismo se originou no século II e não surgiu diretamente do judaísmo, contrariando o Novo Testamento (escrito entre 160 e 360). Coincidentemente, para o judaísmo o cristianismo é de origem pagã e não surgiu de suas fileiras. É mais fácil verificar nos símbolos cristãos a sua origem pagã do que em documentos históricos a sua alegada origem judaica. A seu favor só o Novo Testamento.

http://plato.stanford.edu/entries/bauer/

Povo algum se empenharia tão apaixonadamente, durante séculos a fio, numa farsa tão atrevida sem um motivo sério. A explicação disto foi o que faltou a muitos estudiosos, como Bauer, que se dedicaram ao desvelamento da origem do cristianismo. A obstinada dedicação dos gregos e o antijudaísmo por eles alimentado, inclusive no Novo Testamento, ficaram a margem das suas análises. Os continuadores da ortodoxia cristã tentam contra-argumentar se referindo aos filos judaicos como evidência em contrário. No entanto, foi a crescente conversão destes gregos o motivo da resposta daqueles outros que conceberam o cristianismo como um antídoto a progressão judaica.

Forte abraço,
Medina.


Juarez Barcellos:

15 de setembro de 2013 às 10:54

Bom dia, Medina.

Realmente, não podemos ter o erro por virtude, o incentivo ao ódio não é justificável em hipótese alguma. Você citou um exemplo de ódio num texto acima por parte da sociedade judaica: “Sabemos que os descendentes de convertidos idumeus, galileus e samaritanos não eram aceitos no seio da sociedade judaica como judeus de fato e de direito. Valiam menos do que um cão.” João Crisóstomo, no mesmo sentimento, comparou os judeus a cães e incentivou o ódio.
Incentivar a paz e o respeito nas relações nem sempre é a opção escolhida, todavia, deveria ser.

Bom domingo!
Juarez


 Ivani Medina:

15 de setembro de 2013 às 11:49

Bom dia, Juarez.

Concordo, e não poderia ser de outra maneira, que a paz e o respeito nas relações deveriam ser a opção preferencial de todos. Especialmente pela experiência acumulada na estrada do sofrimento pela qual a humanidade tem percorrido desde o seu surgimento. Tenho para mim que o ódio seja algo inalienável ao monoteísmo nas suas variadas formas. Não quero dizer com isso que com o politeísmo seria melhor. É que o antepositivo, do gr. mónos, é, on ‘único’ (Houaiss), por si só, é excludente de tudo. De que adianta se evocar a beleza poética dessas crenças quando esta beleza faz o papel da cenoura adiante dos olhos do burro num mundo tão diversificado?

Bom domingo!
Medina.


Juarez Barcellos:

15 de setembro de 2013 às 18:01

Olá, Medina.

Voltando aos fundamentos, gostaria de avaliar contigo o seguinte:

1- Vendo o cristianismo como um movimento anti-judaico, e já vimos que realmente ouve incentivo ao ódio contra judeus;

2- Os documentos de Flávio Josefo e Cornélio Tácito, dentre outros, estavam em poder do império;

3- Muitos acreditam que estes documentos são falsos ou interpolações;

4- Não seria mais conveniente falsificar ou introduzir algo que comprometesse diretamente os judeus;

Como você analisa o fato de não ter ocorrido isso?

Boa tarde,
Juarez


Ivani Medina:

15 de setembro de 2013 às 20:37

Boa noite, Juarez.

4- “Não seria mais conveniente falsificar ou introduzir algo que comprometesse diretamente os judeus;”

As falsificações que não foram feitas só poderiam ser explicadas montando uma teoria com tal finalidade. Será que caímos naquela coisa de provar inexistências? Perdão, mas não tenho porque analisar o não ocorrido.

Boa noite.


 Juarez Barcellos:

17 de setembro de 2013 às 22:33

Boa noite, Medina.

Estou apresentando alguns relatos de atos praticados pelo império voltados para a proteção de sua religião oficial e política. Como você os compreende?

Proibição aos cultos forâneos em 186 a C. (a Bacchanalia) com execução de milhares deles;
Expulsão contra mestres de retórica e filósofos gregos em 173 a C. para restaurar a credibilidade dos deuses pátrios;

Destruição dos altares a Isis e Osiris em 59 a C. sob ordem do Senado;
Destruição dois mil oráculos diversos no ano 12 quando transferiu para o templo de Apolo Palatino os livros sibilinos;

Destruição do templo de Isis-Serapis e jogada no Tibre a estátua da deusa (14 e 37);
Perseguição aos magos, astrólogos, matemáticos e seguidores de deuses orientais (14 e 37);

Forte abraço!
Juarez


Ivani Medina:

19 de setembro de 2013 às 10:48

Bom dia, Juarez.

Mais uma vez me vejo na incomoda posição de escusar-me contigo. Certamente, a história de Roma é muitíssima interessante e as causas que motivaram perseguições religiosas mais ainda. Sabemos que os romanos queriam que seus súditos não se esquecessem de pagar os impostos e respeitassem suas leis. Não davam a mínima para a religião que aqueles praticavam, senão alguma dificuldade oferecesse para aquele momento que se vivia. A tolerância pagã é inquestionável, por isso quando chegamos aos capítulos das perseguições contra os cristãos toda atenção é necessária.

Assim vemos, nos três exemplos que você deu, no final da República e nos outros três no início do Império. Como o meu interesse está voltado pontualmente para os primeiros quatro séculos do cristianismo, o que já considero bastante, posso dizer muito pouco:

No período da República havia o cargo de Censor, que era uma honra concedida pelo Senado a um cidadão romano que deveria fazer o censo e cuidar de proteger a tradição e os costumes de Roma. Aqui vai um interessante exemplo de reação a influência grega numa declaração de um Censor em 94 a.e.c.

“Informamos de que certas pessoas instituíram uma nova espécie de disciplina ou escola; de que nossa juventude freqüenta essas escolas; de que aquelas pessoas se designam pelo nome de retóricos latinos; de que os jovens desperdiçam ali o seu tempo por dias inteiros; e considerando que nossos ancestrais ordenaram que instrução convém aos nossos filhos, e que escola devem freqüentar, e considerando estas novidades, contrárias aos costumes e instruções dos nossos ancestrais, nós nem aprovamos nem as julgamos boas; cumprindo o nosso dever notificamos o nosso julgamento, tanto aos que mantêm essas escolas quanto aos que as freqüentam elas incorrem em nossa condenação”. (MONROE, Paul, História da Educação, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1978, p. 84.)

Com o Império o poder do Senado se esvazia e o cargo de Censor é extinto. Por coincidência e na sequência do deslumbre de alguns romanos, como Julio Cersar, pela influência grega; a chegada, em massa, de gregos asiáticos cultíssimos e altamente especializados nas diversas ciências, a classe média de Roma, anteriormente latina, foi se transformando perigosamente numa classe média de origem grega. No final do século I mais de 90% dela era desta origem. Contasse que nas ruas ouviam-se tanto o latim quanto o grego.

Antes que o fato se consumasse, isto é, o advento do Império, os latinos que não o desejavam, mas sim a restauração da República e dos antigos costumes, foram vencidos. O poder econômico dos novos ricos de Roma acabou por corromper aquela sociedade e enfraquecê-la moralmente (moral no sentido literal de “costumes”).

Quanto ao culto de Serápis, Otávio Augusto o havia proibido por causa da influência de Marco Antônio e Cleópatra.

“[…} Ele posou com ela para a pintura de retratos e estátuas que representavam Osíris ou Dionísio e ela Selene ou Ísis. Este (Marco Antônio), mais do que tudo, fazia parecer ter sido enfeitiçado por ela por meio de encantamento.” (Dion Cássio, História Romana)

Forte abraço,

Medina


Juarez Barcellos:

22 de setembro de 2013 às 10:19

Bom dia!
Medina

Estou pesquisando para melhor entender o momento e as circunstâncias na história em que o Império Romano, crendo em tantos deuses, vem a adotar o cristianismo como religião.

Será que o império estava em decadência?
Será que o cristianismo estava em ascensão?
Será que o proselitismo judaico era tão forte ao ponto de incomodar o império?
Será que o império queria sincretizar tudo para melhor dominar o mundo?

Creio que muitos detalhes devem ser analisados com amplitude para melhor compreendermos a progressão desse momento na história, e ainda mais, entendermos os resíduos dessa química nos dias atuais.

* Quero aproveitar para compartilhar com você uma felicidade pessoal, minha esposa está grávida, seja menino ou menina, será muito bem vindo!

Um abraço!
Juarez


Ivani Medina:

22 de setembro de 2013 às 13:00

Bom dia!

Juarez.
“Estou pesquisando para melhor entender o momento e as circunstâncias na história em que o Império Romano, crendo em tantos deuses, vem a adotar o cristianismo como religião.”

A historiografia que dispomos não é para nos esclarecer, mas para nos deixar confusos e inclinados a fé, pois só na fé ela faz sentido.

“A humanidade teria então uma história comum e uma direção única: a vitória romana e a salvação cristã. A história da salvação romano-cristã reúne tempo e eternidade, história e Cristo. Foi uma ideia absolutamente nova, que nem os judeus haviam chegado a formular, obcecados com a ideia de “um povo eleito.” […] Os eventos históricos eram manifestação de Deus, cuja vontade devia ser decifrada. O destino das nações, as lutas políticas se submetiam à vontade divina. Essa ideia nova criou uma história nova – a história universal.” (REIS, 2003, p. 19)

Naquelas revistinhas de palavras cruzadas às vezes apareciam umas gravuras aparentemente indecifráveis compostas por manchas e pontos. Depois de algum tempo de observação e algum esforço percebíamos, com nitidez, uma figura qualquer: um animal, um rosto humano etc. Depois de então era impossível não vê-lo mais além das manchas. É assim que me sinto em relação à história do cristianismo – além das manchas.

Posso até parecer pretensioso, mas é fato. A ausência de compromisso com a fé me ajudou sobremaneira. Pelo fato de eu não ser um ex-religioso, não carregar mágoas da religião, e ter desenvolvido muita curiosidade sobre essa história, que faz de mim alguém indesejável ao conhecimento estabelecido, sinto-me intimamente em absoluto conforto diante da desonestidade intelectual constituída. É como se existisse um script com perguntas e respostas, e ai de quem o ignore.

O cristianismo não é fruto de um processo natural de aculturação, daí a minha falta de interesse em estudá-lo por aí. Meus adversários tentam anular os meus argumentos com a pecha do “conspiracionista”. Mas o cristianismo foi exatamente uma conspiração contra o proselitismo judaico. Não havia alternativa senão a sintetização de um antídoto.

“Será que o império estava em decadência?”

Na minha modesta visão pessoal, a despeito do luxo e das fortunas dos primeiros séculos, vejo o império não como a glória, mas como o declínio da história de Roma. Para mim, a verdadeira Roma só existiu na república. É, admito certo radicalismo em minha opinião, mas não é sem motivos.

“Será que o cristianismo estava em ascensão?”

Pelo que sei, há um grande exagero nessa versão para justificar o sucesso da pregação e a teoria equivocada de Constantino como o criador do cristianismo. Ao que parece antes dele os gregos vinham desenvolvendo um trabalho de fôlego sem grande conflito com o mundo pagão, pois segundo alguns, no século IV, os cristãos estavam entre 10 e 15% (não confio muito nessa cifra, creio que devia ser bem menos) da população, o que é muito, mas não o suficiente para o alegado olho gordo do imperador.

“Será que o proselitismo judaico era tão forte ao ponto de incomodar o império?”
Disso já não tenho a menor dúvida. Claro que essa parte da história não mereceu da nossa cultura cristã a importância merecida por motivos óbvios. Eu desconheço que em português existam livros tratando desse específico assunto.

“O zelo proselitista dos judeus foi, certamente, uma das causas do antihebraismo no mundo pagão. Os romanos, sentindo-se ameaçado pelos judeus pela sua religião, responderam a reação defensiva repelindo-os. As duas expulsões dos judeus e que ocorreu com três séculos de intervalo, foram todas as duas motivadas, ao que parece, por sanções contra o proselitismo, também empreendedores, dos judeus. As medidas de Adriano proibindo a circuncisão por todo o império foram mantidas pelos seus sucessores, pelo menos para aqueles que não eram judeus de nascimento, também foram medidas defensivas contra o proselitismo ativo demais. O que marca este proselitismo deixou na história?”

http://www.kolot.it/2009/05/14/la-conversione-2-il-proselitismo-nella-storia/

Outro estudioso italiano compartilha do mesmo ponto de vista. Vou lhe enviar por e-mail o texto dele traduzido (automática).

Maurizio Ghiretti ensina História e Filosofia no ensino médio. Um estudioso da história romana, na Faculdade de Educação da Universidade Católica de Milão, a Fundação colabora com o Centro de Documentação Judaica Contemporânea. Entre seus artigos, incluem: O “status” da Judéia idade Augusto idade Claudia , em “Latomus” (vol. XLIV, fasc 4, em Bruxelas 1985.), o sentido da história , em “The Train” ( No. 5/6, 1990); 100 º aniversário do Partido Socialista Italiano (em “The Train”, n º 6, 1992); cronologia das grandes descobertas geográficas no início do capitalismo mercantil e financeira (em “The Train”, No. . 8, 1992).

Mais uma fonte é a Enciclopédia Judaica de 1906, publicada com permissão da Messrs. Hachette & Co. Uma das mais conhecidas e respeitáveis casas publicadoras do Reino Unido.

http://www.jewishencyclopedia.com/articles/5169-diaspora

O advento da Internet facilitou e agilizou demais as nossas pesquisas. Até cursos online nos são possíveis, como você sabe.

https://www.edx.org/course/harvard-university/cb22-1x/ancient-greek-hero/1047

“Será que o império queria sincretizar tudo para melhor dominar o mundo?”
Claro que essa era uma proposta, em princípio, atraente, mas de longo prazo para despertar a imediata cobiça de um imperador. Para mim, Constantino se dispôs a dar continuidade a um projeto que ele conheceu ainda menino. Lactâncio foi o seu mentor intelectual.
“Creio que muitos detalhes devem ser analisados com amplitude para melhor compreendermos a progressão desse momento na história, e ainda mais, entendermos os resíduos dessa química nos dias atuais.”

Concordo contigo. Posso ter-me equivocado em alguns detalhes, como por exemplo, a hostilidade grega que no início cheguei a imaginá-la como generalizada e não foi assim, como esclarece Maurizio Ghiretti.

“* Quero aproveitar para compartilhar com você uma felicidade pessoal, minha esposa está grávida, seja menino ou menina, será muito bem vindo!”
Caramba, sinto-me honrado com este compartilhamento! Felicidades e sucesso sempre para vocês três e para o resto da família. Muito obrigado!

Forte abraço!
Medina.


Juarez Barcellos:

25 de setembro de 2013 às 11:22

Bom dia!
Medina

O material que você me enviou é muito bom, principalmente o texto Diáspora da Enciclopédia Judaica. E desse texto eu extraí algumas frases que podem nos ajudar na busca de respostas para diversos pontos e aspectos de nossa pesquisa.

Ela apresenta, no parágrafo abaixo, um aspecto cultural geral do povo judeu e as dificuldades de Roma em manter seu domínio sobre ele:

“Os agentes de Roma, como os selêucidas antes deles, foram incapazes de satisfazer um povo ao mesmo tempo tão impressionável e turbulento. Erros repetidos provocaram a insurreição formidável de 66-70, terminando na captura de Jerusalém e a destruição do Templo, o centro da vida nacional e religiosa dos judeus em todo o mundo.”

Os próximos parágrafos apresentam o sentimento daquele povo no primeiro e segundo século:

“Os judeus não tinham mais razão para se agarrar a uma terra onde a recordação de sua grandeza passada só ajudava a tornar o espetáculo de sua humilhação presente, ainda mais amargo, onde a sua metrópole tornou-se, sob o nome “Aelia Capitolina”, uma colônia romana, uma cidade totalmente pagã fazendo entrar o que era proibido aos judeus, sob pena de morte.”

“Após a queda do Templo (70), o governo romano, em vez de simplesmente abolir um imposto que não tinha mais objeto, decidiu impor-lo para o benefício da tesouraria de Júpiter Capitolino, em Roma (“BJ” vii. 6, § 6; Dio Cassius, LXVI 7). Esta foi a origem dos “Judaicus fisco”, um imposto duplamente cansativo para os judeus, e cuja cobrança pelos procuradores ad hoc (“procuratores anúncio capitularia Judaeorum”), de acordo com os registros contendo os nomes dos circuncidados, foi acompanhado dos vexames mais odiosos, notadamente sob Domiciano (Suetônio, “Domiciano”, 12).”

O próximo apresenta um aspecto da condição política do povo judeu com base em um filósofo que viveu entre 25 a.C. e 50 d.C. aproximadamente:

“Em suma, os judeus em certas cidades gregas, em particular naquelas fundadas pelo rei, tinham sidos colocados em perfeita igualdade com os gregos em matéria de tributação, o exercício dos direitos civis, a participação nas distribuições, etc., sem, ao mesmo tempo, possuir o privilégio da cidadania plena. Philo, com uma afetação de fácil compreensão, declara que os judeus consideram como sua “pátria real” o país em que vivem (“In Flaccum”, 7), e é possível que os direitos de cidadania tenham sido concedidos aos indivíduos judeus – Paulo, por exemplo, chamou a si mesmo de cidadão de Tarso (Atos xxi. 39 [o texto é duvidoso]), mas nenhum exemplo se conhece de uma subvenção coletiva deste caráter.”

O parágrafo abaixo contraria as visões de historiadores como Josefo, colocando-as como favoráveis do ponto de vista religioso:

Não se pode duvidar de que o judaísmo desta forma fez inúmeras conversões durante dois ou três séculos, mas as declarações de Josephus, Philo, e até mesmo de Seneca, que representam o mundo inteiro, tão se apressam em direção observâncias judaicas, e devem ser consideradas como exageros fantasiosos (“Contra Ap” ii 39;. Seneca, em vi 11 “agosto Civ Dei,.”;. Philo, “De Vita Moysis”, § 2 [ed mangey, ii 137..]).

O livro que você me enviou por e-mail trata do anti-semitismo de forma ampla, e dentro desse contexto, ele, de forma imparcial, apresenta aspectos do caráter judaico, o que é muito importante, pois isso contribui na compreensão do tema.

Um abraço!
Juarez


Ivani Medina:

25 de setembro de 2013 às 15:49

Boa tarde, Juarez.

“Os agentes de Roma, como os selêucidas antes deles, foram incapazes de satisfazer um povo ao mesmo tempo tão impressionável e turbulento. Erros repetidos provocaram a insurreição formidável de 66-70, terminando na captura de Jerusalém e a destruição do Templo, o centro da vida nacional e religiosa dos judeus em todo o mundo.”

Eu lembraria que já não se tratava da Roma latina. Então, essa comparação com a Síria grega dos Selêucidas vem a propósito. Havia intenção alguma de satisfazer os judeus, pelo contrário. O imperador Cláudio (51-41) introduziu o costume de chamar para seus ministros e principais conselheiros políticos esses cultos, talentosos e abastados libertos gregos, que possuíam um poder jamais atingido por um senador. Os três secretários de Estado: Palas (Finanças), Narciso (Secretaria de Estado) e Calisto (Petições), são bons exemplos de tal situação. Também Nero (54-68) esteve envolvido por poderosos e temidos libertos como Paris, Hélio e Epafrodito. Will Durant conta que Palas nomeou seu irmão Félix (52-60) como procurador na Judeia. Esses procuradores instituíram uma tradição de corrupção e maus tratos junto aos judeus, que culminou com a nomeação de Géssio Floro.

“Como os gregos de Alexandria, os helenos da Palestina eram notórios por seu anti-semitismo: foram de língua grega de Jabné e Achkelon que levaram a Calígula conhecimento de suas medidas antijudaicas. Ingenuamente Roma insistiu em retirar seus procuradores da Judéia das áreas gentias de fala grega – o último, e o mais insensível deles, Géssio Floro, veio da Ásia Menor grega”. (JOHNSON, 1989, p.140)

Embora a nossa historiografia nos induza a conclusão de que Roma tinha grande dificuldade de manter o seu domínio sobre os judeus, e a bravata judaica a isto faça coro para se valorizar, entendo que as dificuldades que fizeram dos romanos um aríete contra os portões de Jerusalém tenha sido obra (especialmente) de gregos. “[…]. Conseqüentemente é importante compreender que a revolta judia contra Roma era, no fundo, um conflito entre a cultura judaica e a grega.” (JOHNSON, p.124) As dificuldades dos judeus no mundo grego se iniciam com o domínio romano, que concedeu privilégios aos judeus despertando uma ciumeira incontrolável.

O sentimento antijudaico que culmina no primeiro século, por ação das classes médias gregas, ao mesmo tempo coexistia com o sentimento filojudaico que muito devia incomodar à intelectualidade de então e seria o motivo de tamanha indignação. Essa é uma história simples como todas as histórias humanas no fundo são. É um escândalo que ainda seja um mistério.

Grande abraço.
Medina.


Juarez Barcellos:

25 de setembro de 2013 às 21:29

Boa noite!
Medina.

Realmente podemos caminhar nesse sentido, porém, sem ignorar os detalhes da trajetória. Ainda sobre o texto Diáspora da Enciclopédia Judaica gostaria de expor os seguintes parágrafos:

“Depois de inúmeras vicissitudes e, principalmente, devido a desavenças internas na dinastia Selêucida, por um lado, e ao apoio interessado dos romanos, por outro lado, a causa da independência judaica finalmente triunfou. Sob domínio dos Hasmoneus o Estado judeu exibindo certo brilho, anexou vários territórios. Logo, porém, a discórdia na família real, e o crescente descontentamento dos piedosos, a alma da nação, em direção a governantes que não evidenciaram qualquer valorização das aspirações reais de seus súditos, fez da nação judaica uma presa fácil para a ambição dos romanos, os sucessores dos selêucidas. Em 63 a.C. Pompeu invadiu Jerusalém e Gabinius submeteu o povo judeu ao tributo.”

“Depois desta catástrofe, a Judéia formou uma província separada romana, governada por um legado, num primeiro momento “pro prætore”, e mais tarde, “pro consule”, que também era o comandante do exército de ocupação. A destruição completa da Cidade Santa, e a resolução de várias colônias gregas e romanas na Judéia, indicavam a intenção expressa do governo romano em impedir a regeneração política da nação judaica.”

“Tal, então, em seus elementos essenciais, eram os privilégios concedidos aos judeus no mundo greco-romano privilégios importantes o suficiente para induzir mais de um cristão para abraçar a fé judaica, a fim de se proteger em tempos de perseguição. No entanto, a medalha teve o seu reverso. Se os judeus tiveram o privilégio como “forasteiros”, eles ainda eram “forasteiros”, ou seja, eles foram privados de todos os direitos e honras a que os cidadãos, nas cidades da Grécia e no Estado romano, tinham direito.”

“Na falta do direito de cidadania grega, os judeus recorreram ao seu direito de cidadania romana, que trazia consigo, mesmo em cidades gregas, inúmeras vantagens.”

“Em Tarso, Paulo era tanto um cidadão romano quanto um cidadão da própria cidade (Atos xvi 37-39.). Em Jerusalém, em 66 e. C. Havia judeus que eram cavaleiros romanos (ii “BJ” 14., § 9). O número de judeus admitidos em Roma, durante os dois primeiros séculos do império não pode ser estimado, mas deve ter sido considerável, tendo em conta o número de escravos judeus que passaram pelas mãos dos romanos como o resultado de três grandes insurreições.”

Creio que estes parágrafos apresentam aspectos dos privilégios concedidos aos judeus, bem como, uma perspectiva da origem e dos motivos desses benefícios notórios. Vejo também que a questão da ciumeira, como você colocou, faz sentido; uma vez estabelecidos privilégios, a inveja é inevitável em qualquer época e com qualquer nação.

Forte abraço!
Juarez


Ivani Medina:

28 de setembro de 2013 às 12:05

Olá, Juarez.
Boa tarde.

Você está certíssimo. Vamos passo a passo, sem pressa para evitar tropeços.

O surgimento do estado judeu sob o domínio dos Hasmoneus não favoreceu a união daquele povo. Aliás, o judaísmo nunca foi monolítico. O reinado judeu aparece também como o resultado da disputa entre judeus helenistas e os triunfantes contra. Os piedosos, que apoiaram a revolta desde o início, entendiam que os Hashmoneus não tinham direito a iniciarem uma dinastia sacerdotal, pois não pertenciam à linhagem do sacerdote do rei Davi, Zadok, tampouco a linhagem daquele rei. Portanto, nem o trono secular lhes cabia. O crescente desencanto dos piedosos com essa situação, com as disputas familiares e a política interna daquele reinado, levou-os ao afastamento e a uma dura oposição. Os perushim (separados) ou fariseus eram os instrutores, guardiães e propagadores da cultura judaica. Todavia, alguns daqueles que se diziam descendentes de Zadok ou dessa tradição sacerdotal, foram os saduceus ou zadokeus. Pertencentes ao poder hasmoneano ainda conservavam influências helênicas e a descrença no sobrenatural, ao contrário dos fariseus.

Em 78 a.e.c. os ashmoneus conquistaram e absorveram a Samaria, Edom, Moab, Galiléia, Iduméia, Transjordânia, Gadara, Pela, Gerasa, Ráfia e Gaza. O judaísmo e a circuncisão foram impostos aos seus novos súditos pela força da espada.

“Depois desta catástrofe, a Judéia […]” fica claro que a política antijudaica torna-se mais ostensiva. Nenhuma referência ao alegado judeu-cristianismo se faz notar. As referências a Paulo, Atos et. me parece um discreto ceno de cabeça do judaísmo (por obrigação) ao cristianismo do outro lado da calçada.

Forte abraço,
Medina


Juarez Barcellos:

2 de outubro de 2013 às 10:54

Bom dia, Medina.

Sobre a associação do império com o cristianismo tenho uma definição, que se ainda não é totalmente clara, caminha para definir nesse sentido, porém, estou ampliando as fontes para expor minha posição.

Quero aproveitar este ínterim para comentar sobre a condição de um personagem tão importante para o cristianismo que é Paulo de Tarso.

Considerando que Paulo era Judeu, e obviamente os judeus não tinham, do ponto de vista religioso, nenhum motivo para favorecer o cristianismo; ainda mais, que era fariseu, a seita judaica mais conservadora da época, portanto, com a menor aceitação às posições liberais helênicas; sustenta sobre si, aceito apenas sobre a temática da conversão, o contraponto de ter sido ele o maior divulgador do cristianismo de todos os tempos.

Como você compreende o personagem Paulo de Tarso dentro do contexto cultural da época?

Forte abraço!
Juarez


Ivani Medina:

2 de outubro de 2013 às 11:46

Bom dia, Juarez.

“Como você compreende o personagem Paulo de Tarso dentro do contexto cultural da época?”

Compreendo o personagem literário Paulo como a versão grega para a chegada da suposta seita judaica ao mundo pagão. Ele simboliza todo o esforço de resgate dos gregos convertidos ao judaísmo a partir de uma nova solução contra o proselitismo judeu.

  1. Os fariseus eram os legítimos zeladores, propagadores e defensores do judaísmo. Daí a cólera cristã contra eles com suas estórias.

Forte abraço.
Medina


Juarez Barcellos:

13 de outubro de 2013 às 11:04

Olá, Medina!
Como tem passado?

Nesta busca por melhor conhecimento deste assunto, que para mim é muitíssimo importante, empenhei-me em ler livros escritos naquela época, embora não existam muitos; mas o que se tem é usado pelos historiadores atuais para expor suas definições, ou apenas opiniões. O livro I da História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia é um dos meus primeiro materiais de leitura. Ele me remete à necessidade de conhecer melhor a obra de Flávio Josefo, pois este historiador foi um dos mais importantes de todos os tempos, sua obra era respeitada nos primeiros séculos e continua até o nosso, sendo ainda muito estudada.

Mas vejo que para o que eu havia colocado anteriormente, sobre às circunstancias em que o Império Romano oficializou o cristianismo, há um choque de posicionamentos referente à análise da veracidade dos documentos, bem como a honestidade e a imparcialidade dos homens que escreveram naquela época. Por isso quero me aprofundar nas obras de Flávio Josefo, Fílon de Alexandria, Eusébio de Cesareia, dentre outros, para não me dar à infelicidade de defender definições que eu mesmo não pude analisar e interpretar as origens. Portanto, considerando a importância que dou a este assunto, deixo em aberto estes quatro “serás”, embora minha lucidez sobre o assunto se amplie a cada leitura.

Será que o império estava em decadência?
Será que o cristianismo estava em ascensão?
Será que o proselitismo judaico era tão forte ao ponto de incomodar o império?
Será que o império queria sincretizar tudo para melhor dominar o mundo?

Quero reafirmar a importância e o prazer no contato contigo.

Até breve; Felicidade!

Juarez


Ivani Medina:

13 de outubro de 2013 às 12:06

Olá, Juarez!

Tudo bem, obrigado. Espero que contigo esteja também. Respeito a sua opinião em relação à Josefo. No entanto, ele somente passou a ter destacada importância para o cristianismo na sua “legitimação” como judeu, ao ponto de introduzirem parágrafos nela confirmando a existência física de Jesus.. Sua confiabilidade é muito discutida. A obra de Eusébio também está permeada de lendas, como a carta de próprio punho de Jesus ao rei de Edessa. Sem dúvida algumas são obras importantes.

Você está correto na sua posição de estudante. O recurso declarado da desonestidade utilizado pelos pais da igreja merece realçada atenção. Isto não pode ser atribuído às necessidades imperiais, mas às necessidades de convencimento e de propagação deles mesmos na época. Quanto ao lado sentimental e filosófico da questão eu não questiono. Aqueles que mentiram para convencer não estavam em conflito com os próprios sentimentos. Creio que isto confunda muito.

“Será que o império estava em decadência?”

No segundo século, quando surgiu o cristianismo, o império enfrentou algumas dificuldades como a reposição da mão-de-obra escrava, mas decadência não.

“Será que o cristianismo estava em ascensão?”

Desde que surgiu, o cristianismo iniciou a lenta e definitiva escalada.

“Será que o proselitismo judaico era tão forte ao ponto de incomodar o império?”

Creio que sim. O professor italiano, cuja matéria lhe enviei, afirma isso. O curioso foi que em língua inglesa quase não se encontra nada. Em português nem pensar. Nunca estive com um livro de história nas mãos que tratasse do assunto. Quando muito algo como notas de rodapé. Uma vergonha.

“Será que o império queria sincretizar tudo para melhor dominar o mundo?”

Sim. Acredito com motivos que não se tratava meramente do poder político temporal, mas, inclusive, uma garantida de que o judaísmo estaria sob controle e sem a oportunidade de envolver as massas. O ódio contra os judeus permanece até hoje no inconsciente das multidões. Foi um trabalho bem feito.

“Quero reafirmar a importância e o prazer no contato contigo.”

É recíproco, meu caro.

Até e um grande abraço.


Juarez Barcellos:

15 de outubro de 2013 às 22:30

Boa noite, Medina.

Sobre a questão da decadência, existem dois fatores que se chocam drasticamente, e apontam para uma crise sem solução:

1- A hierarquia no poder imperial romano tinha uma escalada rumo à idolatria, além dos venerados deuses greco-romanos;

2- A diáspora pós guerra somada ao proselitismo geraram um grande crescimento do judaísmo, e o cristianismo em acensão fortaleceu e ampliou a visão religiosa monoteística;
Considerando estes dois fatores evidencia-se uma crise sem solução instalada, pois a morte para o monoteísmo é mais honrosa que a idolatria.

O crescimento dessas duas correntes monoteístas, em todos os seguimentos sociais, inclusive dentro do governo e do exército, proporcionariam uma incontrolável contestação dos valores e dos poderes imperiais impostos aos povos.

Medina, se isso faz sentido, e estou convicto que sim, posso afirmar ainda, que numa posição política em que uma das soluções seria matar escravos e pagadores de impostos judeus e cristãos, e outra seria filiar-se a uma dessas para manter o poder; parece-me então, que entre uma doutrina religiosa aberta e com novos valores e outra com histórico conservador e que recentemente havia se rebelado, uma tendência a cristianização do poder seria lógica, por ser extremamente favorável à sua manutenção.

E vendo nos dias atuais a ousadia dos homens no uso da fé alheia, e as manobras que são feitas para ampliar ou manter os fiéis, não fica muito difícil crer que existe uma possibilidade grande de ter se dado desta maneira. A final, riqueza e poder seduzem em qualquer época.

Sobre o ódio aos judeus vou expor minha opinião em breve.

Um forte abraço!
Juarez


Ivani Medina:

16 de outubro de 2013 às 17:47

Boa tarde, Juarez.

1- “A hierarquia no poder imperial romano tinha uma escalada rumo à idolatria, além dos venerados deuses greco-romanos;”

Traduza isto para mim, por favor.

2- “A diáspora pós guerra somada ao proselitismo geraram um grande crescimento do judaísmo, e o cristianismo em acensão fortaleceu e ampliou a visão religiosa monoteística;”

Aqui falamos dos três primeiros séculos, em especial do século II, quando o império estava muito bem das pernas.

“O crescimento dessas duas correntes monoteístas, em todos os seguimentos sociais, inclusive dentro do governo e do exército, proporcionariam uma incontrolável contestação dos valores e dos poderes imperiais impostos aos povos.”

O cristianismo só vai aparecer na disputa depois do século IV, quando consegue apoio do governo.

O sentido que você encontrou não me parece tão claro se considerarmos os fatos. As dificuldades na gestão do império se iniciam depois do final da casa dos Antoninos com a posterior anarquia militar que culminará com a ascensão de Constantino no século IV. Até então me parece prematuro se falar em decadência.

Forte abraço.
Medina


Juarez Barcellos:

21 de outubro de 2013 às 14:21

Boa tarde, Medina.

Veja se os termos intitulações e divindade imperial dão mais sentido à frase:
1- “As intitulações no poder imperial romano tinha uma escalada rumo à divindade imperial, além dos venerados deuses greco-romanos;”

“Se Augusto prosseguia na tradição dos grandes construtores de templos da República, seus sucessores não seguiram seu exemplo do mesmo modo. A construção dos templos em Roma passou a ser feita principalmente em favor dos novos deuses, isto é, os sucessivos imperadores mortos, declarados diui após sua morte. O precedente, porém, foi aberto pelo próprio Augusto, que construiu o templo para seu pai adotivo, Divus Iulus¸ no Forum romano, mais ou menos onde a multidão fizera-lhe a pira funerária em março de 44 AC, imediatamente após seu assassinato. Cerca de 60 anos depois, o próprio Augusto era deificado por seu sucessor Tibério e pelo Senado do tempo, e seu templo foi construído no Forum. A partir daí, e até Marco Aurélio, quase todos os Diui tiveram templos, alguns de proporções gigantescas.” Claudia Beltrão da Rosa, UNIRIO – ARTE, RELIGIÃO E PODER NA ROMA ANTIGA: INOVAÇÕES E CONSERVADORISMO NA REPÚBLICA TARDIA – NEA/UERJ 2008 (p. 18-19).

O período de prosperidade sob o regime imperial se deu em parte pelas conquistas territoriais, que enriqueceram parte da população e pela substituição de trabalhadores pela mão-de-obra escrava gerando aumento da população urbana. Mesmo neste período observa-se problemas sociais graves notoriamente observados pelo alto número de imperadores, principalmente no “ano dos quatro”, a crise do terceiro século (235) não surge por acaso, mas é fruto de problemas institucionais e sociais acumulados. Todavia, cabe dizer que problemas sociais sempre estiveram presentes na história da humanidade, portanto, não seriam as conquistas republicanas ou imperiais dos romanos capazes de livrá-los de tais.

“Os últimos anos da República, de acordo com Alföldy, podem ser identificados como momentos de crise política e social (ALÖFLDY, Géza.1989. p.: 82.). Os conflitos declarados são passíveis de serem divididos em quatro tipos: as lutas dos escravos, as resistências dos habitantes das províncias contra o domínio romano, a luta dos itálicos contra Roma e os conflitos políticos entre os próprios cidadãos da urbe. O embate geral culminou na Guerra Civil, apresentando lapsos de profunda periculosidade para Roma, como, por exemplo, a Revolta de Spartacus e a Guerra contra Sertório na Hispania.” Vanessa Vieira de Lima, UNIRIO – ESCOLAS DE ROMANIDADE: A EXPERIÊNCIA SERTORIANA NEA/UERJ 2008 (p. 104).

Forte abraço!
Juarez


Ivani Medina:

22 de outubro de 2013 às 19:17

Boa noite, Juarez.

“As intitulações no poder imperial romano tinha uma escalada rumo à divindade imperial, além dos venerados deuses greco-romanos;”

Comentário: O povo de Roma [as classes médias ainda de origem predominantemente latina] não desejava o império, mas restaurar a república e as antigas tradições, no final do último século. Júlio César sim havia possivelmente sonhado com uma nova e radiante Roma, iluminada pelo amado helenismo de Cleópatra. Aliás, o sonho dela ou deles era vê-lo realizado na pessoa do filho, Cesário. Culturalmente, os romanos estavam à mercê dos gregos, ainda que houvesse resistência.

“È provável que César ambicionasse conciliar a aristocracia e a democracia no imperialismo. Seu sonho era, talvez, uma república liberal e conquistadora, culta e artística, igual à que do alto das colinas de Atenas iluminaria o mundo, mas muito maior e mais poderosa, cujo corpo fosse a Itália e a cabeça, Roma. Governada com o auxílio de uma classe média abastada e culta e de uma aristocracia enérgica e prudente, franqueada aos homens e às idéias novas, tal república cumpriria o ideal de hegemonia universal de Alexandre e faria da Itália a coluna mestra da civilização, a metrópole da força, do dinheiro, da arte, da ciência, da eloqüência, da liberdade.” (FERRERO, 1965, P. 193).

“Se Augusto prosseguia na tradição dos grandes construtores de templos da República, seus sucessores não seguiram seu exemplo do mesmo modo. A construção dos templos em Roma passou a ser feita principalmente em favor dos novos deuses, isto é, os sucessivos imperadores mortos, declarados diui após sua morte. O precedente, porém, foi aberto pelo próprio Augusto, que construiu o templo para seu pai adotivo, Divus Iulus¸ no Forum romano, mais ou menos onde a multidão fizera-lhe a pira funerária em março de 44 AC, imediatamente após seu assassinato. […]”

Comentário: Considerando o historiador italiano Guglielmo Ferrero, eu diria que a argúcia greco-oriental estaria dando de 10 X 0 na perspicácia latina. Pelo rumo que as coisas tomaram fica nítido que o responsável (absoluto) pela ideia de endeusamento do príncipe e dos futuros imperadores não foi o próprio Augusto.

“No dia 25 de novembro, ao menos é o que parece, [Augusto] desembarca em Samos, às portas das antigas monarquias de Pérgamo e da Bitínia, isto é, das duas províncias da Ásia e da Bitínia que depois de Ácio lhe tinham pedido licença para erguer em sua homenagem, como se fazia para os reis antigos, dois templos nas duas antigas metrópoles, Pérgamo e Nicomédia, respectivamente; e, se ele não encontrara templo acabados, encontrou pelo menos o seu culto preste a estender-se singularmente a toda Ásia grega. Pérgamo não estava só ao construir o templo e ao organizar em torno deste o culto de Augusto, tomando por modelo o de Zeus: ela tinha ao seu lado a Ásia inteira, a dieta das cidades asiáticas, que já se reunia na época de Antônio, e isso para que o templo não traduzisse a devoção apenas de uma cidade e sim de toda a Ásia. Toda Ásia, efetivamente, se entregava ao novo culto e ao novo deus. Em muitas cidades organizavam-se os jogos solenes em honra de Roma e de Augusto; em outras, como Milasa, Nisa, Mitilene, erguiam-se altares e templos ao princeps da república romana; em Alabanda o seu culto foi associado ao de uma das divindades da cidade”.
“Seja embora verossímil que naquele inverno Augusto esteve preocupado principalmente com a questão dos partos e a expedição contra a Armênia, que deveria estar terminada na primavera, não é todavia impossível quisesse saber o que pediam, em troca daquele culto e dos templos, os povos do Oriente. Esse culto era uma novidade estranha. Mesmo ao tempo da monarquia a adoração de reis vivos parece ter sido praticada apenas no Egito, enquanto a Ásia Menor esperava que eles morressem para depois incluí-los na legião dos deuses. Por que, então, essa planta egípcia, que jamais deitara raízes no próprio solo da Ásia, florescia agora tão depressa? Por que, enquanto na Itália se tentava restaurar as instituições republicanas, o culto dos soberanos vivos, suprema exageração do sentimento dinástico, se desenvolvia tão rapidamente entre os gregos da Ásia Menor, enroscando-se como hera ao primeiro magistrado da novel república?” (FERRERO, P. 136 e P.138).

FERRERO, Guglielmo. Grandeza e decadência de Roma. vol. I, Porto Alegre: Globo, 1965.

“O período de prosperidade sob o regime imperial se deu em parte pelas conquistas territoriais, que enriqueceram parte da população e pela substituição de trabalhadores pela mão-de-obra escrava gerando aumento da população urbana.”

Comentário: Creio que a prosperidade do império e a própria remodelação de Roma, a educação dos seus habitantes etc. se deva também a alta qualidade e as novas técnicas trazidas pela mão-de-obra escrava chegada da Ásia Menor. Era um tipo de escravos diferentes dos gauleses, por exemplo. Grosso modo gente culta de um nível social elevado que se viu como serviçal na casa de camponeses rudes. Se para ter problemas basta estar vivo, o que dizer dos governos então na história da humanidade. Vou deixar a opinião de Edward Gibbon quanto a questão da decadência do Império Romano.

“[…] As diversas causas e os efeitos progressivos [do declínio e queda do Império Romano] vinculam-se a muitos dos acontecimentos mais interessantes dos anais humanos; a política ardilosa dos Césares, que manteve por longo tempo o nome e a imagem de uma república livre; as desordens do despotismo militar; o surgimento, estabelecimento e seitas do cristianismo; a fundação de Constantinopla; a divisão da monarquia; as invasões e colônias dos bárbaros da Germânia e da Cítia; […]” (GIBBON, 2005, p. 597)

GIBBON, Edward. Declínio e queda do Império Romano. Ed. abreviada. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

“conflitos declarados são passíveis de serem divididos em quatro tipos: as lutas dos escravos, as resistências dos habitantes das províncias contra o domínio romano, […]“
Comentário: Já vi gente tentando argumentar que o conflito de Spartacus seria fruto de uma dificuldade social em vias de explosão, como a endossar a teoria marxista de luta de classes na Antiguidade. Pior, tentam relacionar isto com o surgimento do cristianismo. Eu não concordo com essa tese. Para mim é somente ideológica.

Forte abraço!
Medina.


 Juarez Barcellos:

24 de outubro de 2013 às 10:19

Bom dia, Medina!

“As diversas causas e os efeitos progressivos […]”; parece que esse texto engloba resumidamente os fatores que fizeram parte do contexto.

Realmente não há como apontar centralizadamente um fator que tenha gerado a queda do império, nem se deve afirmar que ouve um fim para aquela civilização.

Confesso que tenho tendência a ver o assunto com um olho nas lutas de classes e outro no oportunismo religioso; o primeiro simbolizando as “causas” e o segundo as “buscas por soluções”. Talvez, eu tenha necessidade de tirar a complexidade das coisas e fatos, mas realmente este assunto necessita ser analisado em sua amplitude de complexidade.

A história do Império Romano é comumente resumida em três períodos:
De 27 a.C. até 193, intitula-se habitualmente como “Alto Império”, “Período da Paz Romana” ou Principado, tendo a dinastia dos Antoninos (96-192) como o ponto máximo em termos de desenvolvimento político, artístico e cultural. A dinastia dos Severos (193-235) e a Anarquia Militar (235-284) envolvem a chamada “Crise do Século III”, por se tratar de um período de forte abalo das estruturas do império. Da ascensão de Diocleciano (284) até a deposição de Rômulo Augusto (476), a historiografia chama de “Baixo Império”, Dominato, ou ainda, “Antiguidade Tardia”. Alguns estendem este último período até 565.

Com relação ao proselitismo judaico, realmente é difícil encontrar material literário, a informação religiosa sobre o período do império está basicamente focada no cristianismo. Há ainda, no campo religioso, muita informação sobre a forma romana, desde a república, de observar e até mesmo de buscar para si o favor dos deuses dos povos a serem dominados; talvez essa cultura religiosa faça algum sentido em relação à conversão imperial ao cristianismo, obviamente não havia uma nação a ser conquistada, mas um domínio a ser mantido. Não quero com isso insistir neste ponto de vista, muito menos supor dúvidas sobre a autenticidade da conversão de Constantino, mas apenas apresentar uma possibilidade de raciocínio que, ao analisar os fatos, permanece diante de mim como tal.

Forte abraço;
Juarez


Ivani Medina:

24 de outubro de 2013 às 17:56

Boa tarde, Juarez.

Pois então, hoje, em pleno século XXI, ainda nos encontramos entre essas duas versões, a confessional e a marxista. Temos a nossa disposição uma erudição circular que nos leva de volta sempre ao mesmo ponto. Um círculo vicioso. Nada de maiores informações, nada de nada. Para manter a tradição a salvo se esquecem dos escrúpulos.

Forte abraço.
Medina


Juarez Barcellos:

28 de outubro de 2013 às 11:06

Bom dia, Medina.

Encontrei material que enfoca a questão que você aborda, porém, parece que está mais voltado para o ódio contra os judeus do que propriamente contra o crescimento do judaísmo. Embora os dois pontos estejam entrelaçados, obviamente o ódio é pior. As leis apresentadas abaixo foram promulgadas a partir do reinado de constantino, seguindo-se em longa escala, passando pelo arianismo e, se não estou errado, tendo como reflexo manifestações mais recentes em países ocidentais á algumas décadas passadas.

Ne christianum mancipium iudaeus habeat (Não tenha um judeu um escravo cristão)

A última proibição, promulgada no reinado de Constantino (335), se repetiu durante os reinados de Constâncio (339) e de Graciano (375), quando os judeus são proibidos de ter ou adquirir escravos cristãos.

Codex Theodosianus, XVI, 9,1(335) “Si quis Iudaeorum Christianum mancipium vel cuiuslibet alterius sectae mercatus circunciderit, minime in servitute retineat circumcisum, sed libertatis privilegiis, qui hoc sustinuerit, potiatur.” (a circuncisão de escravos não-judeus)

Codex Theodosianus, XVI, 9, 2(339) Constâncio legisla que “se alguém entre os judeus adquirir um escravo de outra seita ou nação (mancipium sectae alterius seu nationis crediderit conparandum), este deverá ser confiscado pelo tesouro imperial/fisco (mancipium fisco protinus vindicetur). Mas se, além de adquirir o escravo, o judeu ousou circuncidá-lo (si vero emptum circumciderit), não seria apenas punido com multa(non solum mancipium damno multetur), mas também receberia a pena capital (verum etiam capitali sententia puniatur)”.

No III Concílio de Toledo, cânon 14 (589) se afirma que: judeus não poderiam ter esposas e nem concubinas cristãs (ut iudaeis non liceat christianas
habere uxores vel concubinas) nem escravos cristãos para uso próprio (neque mancipium christianum in usus proprios conparere).

“um crime os servidores de Cristo servirem os ministros do anticristo” “nefas est enim ut membra Christi serviant Anti-Christi ministris.” IV Concílio Tolentino, c. 66.

FELDMAN, S. A., 2002

C.Th. XV.v.1: No dia do Senhor, que é o primeiro dia da semana, em Natal, e no dia da Epifania, Páscoa e Pentecostes, na medida em que, em seguida, as vestes [brancas] [dos cristãos], simbolizando a luz celestial de limpeza testemunham a nova luz do santo batismo, na época também do sofrimento dos apóstolos, o exemplo para todos os cristãos, os prazeres dos teatros e jogos devem ser mantidos com as pessoas em todas as cidades, e todos os pensamentos dos cristãos e crentes devem ser ocupados com a adoração a Deus. E, se forem impedidos da adoração através da loucura da impiedade judaica ou o erro e insanidade de tolo paganismo, que eles saibam que há um tempo para a oração e outro para o prazer.

C.Th. XVI.v.iii: Sempre que for encontrada uma reunião de uma multidão de maniqueístas, deixe os líderes ser punido com uma multa pesada e deixar aqueles que participaram ser conhecido como infame e desonrado, e ser excluído da associação com os homens, e deixar a casa e as casas onde a doutrina profana foi ensinado ser apreendido pelos policiais da cidade. Valentiniano e Valens Augusti.

Estou lendo outras fontes para entender melhor o assunto.

Forte abraço;
Juarez


Ivani Medina:

28 de outubro de 2013 às 11:36

Bom dia, Juarez.

O material que você encontrou está distante da origem, século II. São ecos de algo ainda intencionalmente oculto. É o que buscamos. O antijudaísmo dos pais da Igreja me parece mais revelador. A declaração da Nova Aliança é o próprio escracho, a revelação dos seus desígnios ocultos.

Forte abraço.

Medina


Ivani Medina:

31 de outubro de 2013 às 15:16

Olá, Juarez. Boa tarde.

Encontrei este artigo acadêmico que vale a pena dar uma olhada:

http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/18725/0

Forte abraço,
Medina.


Juarez Barcellos:

6 de novembro de 2013 às 22:20

Boa noite, Medina.

Creio que as frases abaixo resumem o trabalho que você citou.

1. Em -46 Júlio César emitiu uma série de decretos protegendo culto judaico, mais tarde confirmado por Augusto, e aplicado onde há judeus.

2. Deve-se notar que, apesar das duas revoltas na Judeia, as leis romanas para protegerem os judeus nunca foram revogadas e o culto imperial nunca lhes foi imposto.

3. As primeiras leis anti-judaicas começaram no cristão Império Bizantino e são motivados por rivalidades puramente.

4. Os judeus não eram uma preocupação central no império pagão. No entanto, tornaram-se ódio na teologia cristã.

Até aqui, abordamos vários pontos, confesso que todos me interessam, entretanto, o centro de sua observação está na questão do cristianismo como uma farsa em oposição ao judaísmo, talvez uma conspiração greco-romana. Se nós queremos seguir em busca de respostas, e penso que sim, acredito devamos analisar algumas questões que ainda não vimos e revermos outras já observadas. Para isso proponho inicialmente uma análise em pontos específicos no Novo Testamento; concorda?

Forte abraço,
Juarez


Ivani Medina:

7 de novembro de 2013 às 11:13

Olá Juarez, bom dia.

Os textos que apresento não representam o meu modo de pensar e nem poderiam. 99,9% dos autores que venho consultando na minha pesquisa são cristãos. A tendência é mesmo complicar para que a verdade permaneça na sombra para que não arranhe a fé cristã no imbróglio que ela se meteu ao apelar para o tempo cronológico.
Discordo do número três.

  1. “As primeiras leis antijudaicas começaram no cristão Império Bizantino e são motivados por rivalidades puramente.”

“Jesus Cristo definido como “Divindade da Divindade, Luz da Luz, Verdadeiro Deus do Verdadeiro Deus, consubstancial ao pai”, a histeria antijudaica redobrou o seu furor e a acusação mais corrente que se fazia aos judeus era de “deicidas”. Tudo começou em 18 de outubro de 315, quando Constantino proibiu os judeus de adotarem medidas contra seus correligionários convertidos ao cristianismo, na mesma ocasião que ele próprio tomou medidas para desencorajar os cristãos de se converterem ao judaísmo”. (MESSADIÉ, 2003, p.150 –151)

Discordo também do número quatro.

  1. “Os judeus não eram uma preocupação central no império pagão. No entanto, tornaram-se ódio na teologia cristã.”

Falso. Se não eles não foram uma preocupação constante, foram ao menos para que obtivessem uma legislação especial que muito enciumou a outros. Dizer isso quando Adriano, a despeito dos privilégios por eles conquistados, proibiu a circuncisão em todo império, inclusive para eles, fica até feio. São coisas assim que me mostram que eu estou no rumo certo.

Caro Juarez, para mim o Novo Testamento é um romance religioso cuja finalidade é confirmar uma fé. Considero sua narrativa como pura invenção apoiada em fatos históricos para dar-lhe alguma credibilidade. A intenção é enganar mesmo e é essa tradição do engano que a nossa cultura quer preservar a todo custo. E ainda dizem que a bíblia é verdade. Não sei o que você pretende com isso. No entanto, no momento estou dando uma olhada no Apocalipse de João por causa de Engels. Segundo ele, este é o único documento cristão do século I. Tão logo eu chegue a minha conclusão, lhe passarei um resumo. Bem, diante do que lhe afirmei, esteja á vontade, sabendo de antemão que não considero o NT fonte digna de atenção.

Forte abraço,
Medina


Ivani Medina:

7 de novembro de 2013 às 11:26

Adendo: “ódio teológico” não existe. É conversa fiada para disfarçar o antigo ódio grego que antecedeu o cristianismo e nele se perpetuou. Ódio é ódio.

“Apesar do conflito religioso fundamental, não há nada da obsessão criada mais tarde pelo ódio teológico.” (resumo do artigo)

Justino disse que os judeus eram filhos de meretrizes, entre outras. Tal sentimento teve continuidade com Tertuliano, que escreveu um manifesto sistemático contra os judeus. Irineu chamou os judeus de deserdados de Deus. Cipriano disse que o diabo era o pai dos judeus. O referido “mais tarde” foi em 387, já no século IV, quando teve início a maior campanha de instigação cristã contra os judeus de que se tem notícia na Antiguidade – e ela foi patrocinada pelo Pai da Igreja João Crisóstomo, a partir de Antioquia (Síria). Sentimento indissociável das classes médias gregas por diversos motivos. O conflito era cultural, como afirmou Paul Johnson. Portanto, mais uma afirmação falsa, capaz de confundir quem não sabe o que está a procurar.


Juarez Barcellos:

11 de dezembro de 2013 às 12:53

Olá, Medina;

Saudações!
Agora terei mais tempo para expor, como havia dito, alguns pontos do Novo Testamento, se tu ainda queres prosseguir. Também gostaria de saber sua conclusão sobre o Apocalipse de João.

Além disso, quero dizer que a gravidez da minha esposa é de uma menina que se chamará Bárbara.

Forte abraço!
Juarez

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